Qualidade do ar no Centro está abaixo do limite
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segunda-feira, 04 de maio de 1998
Miriam Karam 
A qualidade do ar de Curitiba não é boa. Ao contrário dos índices de qualidade de vida apregoados e dos 52 metros quadrados de área verde por habitante, cantados em prosa e verso, a cidade não respira de forma saudável. A conclusão é de um trabalho de monitoramento do ar realizado já há três anos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), com apoio dos alunos das escolas municipais.
O projeto ProAr, desenvolvido pelo Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Nimad), descobriu, por exemplo, que alguns pontos de Curitiba apresentam alta concentração de ozônio, superando em muitos casos o nível de alerta de 400 microgramas por metro cúbico. Neste estágio a população deve ser avisada, alerta a professora Zióle Zanotto Malhadas, responsável pelo programa.
O limite máximo admitido pelos órgãos ambientais, tanto brasileiros como da ONU, é de 160 microgramas. Para se ter uma idéia, a empresa paulista Cetesb, que controla o nível de poluição de São Paulo, considera inadequado o ar classificado entre 101 e 199 microgramas por metro cúbico. Na faixa dos 200, a qualidade do ar é considerada ruim; na faixa dos 300 é péssima e, acima de 400, é crítica.
Segundo o levantamento realizado em Curitiba em agosto do ano passado, todos os 32 locais avaliados diariamente durante todo o mês apresentaram grau de poluição superior a 240 microgramas. Apesar disso, os dados não foram divulgados. Infelizmente, pessoas do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) chegaram a pedir que os números não fossem revelados. Tentaram até proibir, afirma a professora, que acredita que tal atitude se prenda à idéia de não prejudicar a imagem da cidade.
O fato é que esses dados não refletem a realidade, rebate a chefe da Divisão de Tecnologia Ambiental do IAP, Ana Cecília Nowacki. Segundo ela, o ProAr utiliza metodologia não prevista em lei, o que impede que seus dados sejam comparados com outros índices de monitoramento do ar. Ana Cecília diz que os números do ProAr não estão necessariamente errados, mas podem sofrer interferências, o que prejudicaria sua credibilidade.
O estudo do Nimad revela que os pontos mais críticos de Curitiba estão na Cidade Industrial, onde a prefeitura instala hoje um equipamento permanente de medição; no Portão, no Campo Comprido e no Centro. O problema, de acordo com a professora Zióle, não é apenas das autoridades. Ela defende um longo processo educativo, que o Nimad está desenvolvendo nas escolas municipais, e mudanças de atitude da própria população.
O grosso da poluição é causado por carros e pela indústria, mas a população pode ajudar de verdade se mudar seus hábitos, afirma. Os moradores da cidade também podem mudar de atitude, reivindicando melhorias. Se a população for mais esclarecida, vai também exigir que os ônibus que cospem fumaça nos pontos sejam melhor regulados, exemplifica.
Este ano, a medição do ar, também prevista para agosto, corre o risco de não ser feita por falta de verbas, diz a professora Zióle, autora de uma cartilha que está sendo distribuída aos professores que já participam do projeto ProAr. Segundo ela, a cartilha não vai alcançar toda a rede de ensino por falta de recursos - foram impressos apenas 300 exemplares. E, como tanto a UFPR como a Secretaria Estadual do Meio Ambiente afirmam não dispor de verbas, o levantamento da qualidade do ar pode ser abandonado. Precisávamos de pelo menos cinco anos seguidos, diz Zióle, para que a amostragem siga os padrões científicos.


