Se Londrina continuar crescendo na mesma intensidade e forma dos últimos anos, em pouco tempo a qualidade de vida vai cair a níveis insuportáveis, sobretudo na área central da cidade. A opinião é da professora Mirian Vizintim Fernandes Barros, do Departamento de Geografia da Universidade Estadual local (UEL). Há três semanas, Mirian Barros apresentou tese de doutorado em geografia, na Universidade de São Paulo (USP), na qual fez uma ‘‘análise ambiental urbana: estudo aplicado à cidade de Londrina’’.
A pesquisa da professora utilizou dados oficiais da Prefeitura e de órgãos da administração direta e indireta e empregou metodologia de análise do Sistema de Informação Geográfica (SIG), utilizando base cartográfica atualizada com fotos orbitais, feitas pelo satélite TM Landsat 5.
Mirian considera que Londrina é uma cidade muito bem dotada de condições naturais, como os ribeirões, lagos, vales, parques, matas nativas que cortam a cidade e que são espaços de preservação permanente. Isso facilita a manutenção de boas condições ambientais e a qualidade de vida de sua população. Entretanto, a especialista afirma que se comparada com cidades européias do mesmo porte, a qualidade de vida em Londrina já deixa muito a desejar.
Ações de planejamento urbano, como a manutenção das áreas de cobertura vegetal nativa, reflorestamento de áreas de acentuado declive, criação de praças, bosques, parques e jardins, além de uma boa arborização das ruas e avenidas e, também, reflorestamento do topo das colinas (possível pelo menos nas áreas urbanas ainda não ocupadas) e a adoção de adequadas leis de loteamento e zoneamento, assegurariam as condições ambientais adequadas para garantir a qualidade de vida desejada.
Essas possibilidades, inclusive as naturais, não estão sendo cuidadas como deveriam ser, na opinião da especialista:‘‘É necessário transformar certos valores culturais, arraigados na população e que refletem também nas decisões políticas do Poder Público’’.
‘‘Não dá para exigir que as pessoas preservem os fundos de vale, por exemplo, quando nem sequer têm um lugar para morar. Mesmo assim, transformar esses ambientes em depósitos de lixo é inaceitável numa sociedade civilizada’’, destaca Mirian, enfatizantando a necessidade de esclarecimento da população sobre a importância do meio ambiente para uma vida mais saudável. ‘‘A partir dessa consciência, as pessoas vão entender a necessidade de exercer a cidadania e exigir das autoridades a garantia de seus direitos.’’
A professora da UEL lembra recentes decisões da Câmara de Vereadores, que alterou a Lei Orgânica permitindo que qualquer área pública abandonada por mais de 10 anos seja doada para qualquer finalidade. ‘‘É uma decisão inconstitucional, ilegal e inaceitável, não somente porque afronta a lei, mas especialmente porque desconsidera fundamentais conquistas da sociedade já consolidadas na ordem jurídica. Os espaços públicos têm que ser preservados.’’
Para Mirian Vizintin Fernandes de Barros, a decisão dos vereadores reflete uma visão meramente mercantilista. ‘‘Os vereadores e a comunidade deveriam é exigir que a Administração execute nas áreas de uso comum as obras urbanísticas ou de preservação necessárias para que esses espaços cumpram efetivamente suas finalidades’’, aponta a especialista.
Os estudos da professora revelam que o quadrilátero central de Londrina e até outras regiões, como o Jardim Igapó, ao longo da Avenida Inglaterra (zona sul) apresentam índices de ocupação superiores aos recomendáveis por organismos internacionais. Para a especialista, a cidade precisa adotar leis de loteamento e de zoneamento considerando as recomendações dos organismos internacionais e as determinações da Constituição, nos capítulos da Política Urbana e do Meio Ambiente.
‘‘Dificilmente Londrina vai tornar-se um conglomerado urbano nas proporções de São Paulo, por exemplo, mas se medidas não forem adotadas imediatamente, há grande risco de que a qualidade de vida da população chegue, proporcionalmente, a níveis tão desastrosos quanto os da capital paulista.’’

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