Qual o número do ônibus?
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quinta-feira, 22 de novembro de 2001
Edna Mendes 
Incomodado com o cheiro que exalava dos carrinhos de lanche instalados em volta do Terminal Urbano de Transporte Coletivo, no centro de Londrina, o rapaz tentava se abanar para que sua roupa, camisa de mangas compridas, apesar do calor, e calça de tergal com vincos, não ficasse impregnada com aquele aroma, um misto de bacon, cocada e cebola. Tinha pressa em chegar no seu destino e ainda precisa se informar qual ônibus deveria apanhar. Na tumultuada fila no guichê, onde se vende o passe, o rapaz tentou se informar com o funcionário.
Moço, por favor, qual ônibus eu pego para chegar até o Hospital Universitário (HU)?
Sem olhar nos olhos dele e já contando o dinheiro, o funcionário disse:
O 106 ou 107, qualquer um te leva lá.
Atônito, sem entender nada, o rapaz entrou no terminal e pensou: ''Mas que diabos são esses números''! Seguiu carregando sua enorme e pesada mala. Pensou: ''Bom, vou perguntar para outra pessoa''.
O horário que ele escolheu para ir até o hospital vender livros para médicos e enfermeiros não era o mais ideal. O Terminal estava lotado de gente e de ônibus. Estudantes faziam algazarra e atropelavam quem encontravam pelo caminho. O vendedor se arriscou mais uma vez. Parou no posto de informações acreditando que ali não teria erro.
- Moça, qual o coletivo eu devo pegar para chegar até o HU?
Ela, com uma voz mecânica, responde: o 106 ou 107.
Incrédulo, ele disse: ''Como assim?''
Ali, no primeiro corredor ficam os dois pontos desses ônibus. É só o senhor esperar, apanhar e descer no hospital.
Agora sim, mais aliviado, ele entendeu que em Londrina as pessoas só se referem aos ônibus do transporte coletivo por números. Uma peculiaridade da cidade, talvez única em todo o Estado.
Como um bom vendedor que viaja pelo Paraná vendendo livros da área de saúde, o rapaz lembrou que em Curitiba, se precisasse chegar ao Passeio Público, tomaria o Capão Raso/Santa Cândida, por exemplo. Em Ponta Grossa, para ir até a Rodoviária, era só subir no Ronda. Em Guarapuava, para chegar até a Universidade era preciso apanhar o Santa Cruz. Em Foz do Iguaçu, para chegar até a Ponte da Amizade, era só entrar no sempre lotado Porto Meira-Centro.
Todos esses trajetos lhe passaram pela cabeça enquanto seguia para o HU. Quase em seu destino pensou: aqui, na terra dos ''pés-vermelhos'' tudo é diferente. Da maneira de referir aos ônibus até o jeito de se falar porrrrrrta, porrrrrtão e porrrrteira. Desceu do ônibus rindo e só então se deu conta que o hospital estava em greve. Tinha perdido a viagem, mas não o bom humor.


