Quadrigêmeos completam quatro décadas
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Há 40 anos a Santa Casa de Londrina registrou o nascimento de um dos primeiros casos de quadrigêmeos no Paraná, filhos do casal Sueli Maria Romero Felizardo e Klaiton Ferreira Felizardo. Klíssia foi a primeira a nascer, com 2,050 kg; depois veio Kléber, com 1,850 kg; Kátia, com 1,830 kg; e por último Klaiton Junior com 1,450 kg. O parto foi prematuro, realizado no oitavo mês de gravidez, e foi de cesariana. A equipe na época foi liderada pelo ginecologista obstetra Joaquim Domingos Martins, auxiliado pelos colegas Paulo Zifchak e Osmar Henriques, e pelos anestesistas Wanderley dos Santos e Paschoal José Imperatriz, segundo noticiou a FOLHA no dia 17 de janeiro de 1978.
O nascimento dos quatro bebês logo se tornou notícia nacional. Foram destaque no telejornal de maior audiência do País, sem contar nas reportagens em revistas e jornais. Trigêmeos, quadrigêmeos e quíntuplos são ocorrências muito difíceis de acontecer naturalmente, mas a década de 1970 foi marcada por um período de introdução de medicamentos para infertilidade, melhorando as probabilidades de as mulheres engravidarem e, consequentemente, de ter gravidez múltipla. "Eu tomei uma dose só de um remédio que estava começando a ser utilizado e fiquei grávida logo no início", contou Sueli, na época com 25 anos.
Segundo ela, no ultrassom apareceram dois bebês. "Não se detectava o número de bebês como os exames atuais", explicou "O doutor Joaquim falou que seriam dois bebês e que o parto seria realizado em fevereiro. Eu era professora do Colégio Estadual Vicente Rijo e ia a pé da minha casa até o trabalho. No Natal viajei a Tupã (SP) e subia e descia escadas normalmente. Mas no dia 16 de janeiro rompeu a bolsa e acabei indo ao hospital", relembrou.
Zifchak integrou a equipe de médicos que realizou o parto. "A paciente era do doutor Joaquim e eu fui como auxiliar. Me recordo que foi uma cesárea. Depois que tiramos três crianças, nem sabíamos que havia um quarto bebê. Foi uma superposição", relembrou.
O pai das crianças chegou a desmaiar quando soube dos quadrigêmeos. O então estudante de medicina veterinária Klaiton Ferreira Felizardo, 30, estava na porta do centro cirúrgico, quando viu a movimentação de médicos e enfermeiros. Preocupado, perguntou sobre a mulher e as crianças e recebeu como resposta que estava tudo bem e que eram quadrigêmeos. "Caí para trás. Não sei se foi a pressão que baixou, mas foi um susto", disse. Questionado sobre o que aquele episódio representou para ele, Felizardo respondeu que era tudo o que queria. "Casamento e filhos. Mas não esperava tudo de uma vez, mas Deus quis assim. Graças a Ele todos vieram com saúde", apontou.
Felizardo contou que foi um período difícil. "Tive ajuda de muitos professores. Perdia a prova e eles deixavam eu fazer no outro dia. Meu pai foi o responsável por me manter financeiramente, já que ainda era estudante. Minha mulher lecionava, mas teve de parar de trabalhar para cuidar das crianças", destacou.
Sueli relatou que depois do nascimento seu quarto se tornou local de "romaria". "Todo mundo passava no quarto querendo ver e conhecer quem teve quadrigêmeos. Tinha repórter no dia seguinte querendo entrevistas às seis horas da manhã. Eu não conseguia dormir."
As crianças foram recebendo alta aos poucos: primeiro foram as meninas e depois os meninos. Mas cuidar de quadrigêmeos em um tempo em que não havia fraldas descartáveis, por exemplo, foi um suplício. "Uma tia comprou 200 fraldas em São Paulo e me mandou. A Maçonaria me deu uma máquina de lavar roupa do tipo tanquinho, mas que não torcia a roupa. Todas as fraldas eram lavadas e passadas duas vezes por dia. À noite, quando a enfermeira chegava, todas as fraldas estavam limpas e passadas. Mas de manhã, quando eu assumia, só tinha fralda para o banho deles", disse. Quando saía de casa era preciso mobilizar várias pessoas, porque na época não havia carrinhos para múltiplas crianças.
Ela contou que precisava preparar oito mamadeiras a cada três horas. "Fazia 32 mamadeiras por dia e não era mamadeira normal, em que o bebê toma 100 ml de uma vez. Eles tomavam 50 ml, eu tinha que parar, pois se tomasse de uma vez a válvula do estômago ainda estava incompleta e eles iriam regurgitar. Depois disso dava mais 50 ml e fazia todo o processo de novo", relatou.
Sueli lembrou ainda do período em que as crianças ficavam doentes. "Tudo em casa virava epidêmico, pois um contaminava o outro. Eu tinha uma agenda em que anotava tudo: quando tomava temperatura, quando dava remédio e para quem, quem precisava receber mais cuidado. Tudo tinha que ser muito marcado para ter bom desenvolvimento", destacou.
Questionada sobre o que mais marcou naquele período, ela respondeu com um lamento. "Eu não lembro das gracinhas, das brincadeiras, só do desgaste. Priorizei o cuidado deles, a saúde e o conforto, mas não dediquei tempo para sair, curtir junto", disse, acrescentando que tem cinco netos e agora vê o lado bom e gostoso da "maternidade". "Gravo as imagens deles a cada dia."
Natal todos os dias

Até hoje o casal Sueli e Klaiton Felizardo mantém as bicicletas que os quadrigêmeos usavam quando crianças. Elas foram restauradas e servem como objetos de decoração. Os quadrigêmeos cresceram, se formaram, casaram e vivem em diferentes cidades. A reportagem conversou com dois deles. "Para mim sempre foi normal ser um dos quadrigêmeos. Gosto do companheirismo e da amizade que tinha com meus irmãos", ressaltou Kléber Felizardo.
Kátia Felizardo reforçou que desconhecia o peso de ser de um dos quadrigêmeos quando era criança. "A única coisa estranha era quando a gente passava e todo mundo ficava olhando", enfatizou, dizendo das vantagens de ter três irmãos. "Sempre foi muito bom, porque tinha amigos dentro de casa o tempo todo. Tinha com quem brincar, com quem dividir tudo. Era como se fosse Natal todos os dias."
Sueli lembrou que os psicólogos orientaram colocar um filho em cada sala de aula. "Como na primeira escola só tinha uma sala, eles acabaram estudando juntos. Mas depois, quando foram separados, começaram a dar problema em casa, porque a liberdade que tinham na escola começou a interferir na rotina daqui", apontou. Ela tentou, então, separar em duplas. "Coloquei os dois mais independentes juntos e os mais dependentes também juntos, mas não funcionou, porque o Junior (Klaiton) era muito ligado a Kátia e chorava todos os dias. Juntei os quatro e eles fizeram a divisão que ficava melhor para eles e o problema foi resolvido."
"Eu tinha que colocar uma estátua para a minha mãe. Só com uma filha eu já ficava sem dormir, imagine com quatro. Dá orgulho dos meus pais por terem conseguido criar a gente e dado oportunidade para todo mundo", declarou Kátia.


