Punks e skinheads vivem em guerra
‘‘Se eles têm
condições de
trabalhar, por que
não trabalham?’’
Mauro FrassonOs ‘‘carecas’’ são identificados como nazistas
Os dois usam coturnos do Exército, mas um faz questão de engraxá-los e o outro prefere deixá-los cada vez mais sujos e maltratados. O confronto entre skinheads (ou ‘‘carecas’’) e punks nasceu há algumas décadas e ainda resiste ao tempo. Em Curitiba, a polícia registra casos de brigas entre os dois grupos quase todas as semanas.
‘‘Quando eles se encontram, a pancadaria é certa’’, comenta o delegado José de Deus Alves Pereira, do 1º Distrito Policial. Segundo ele, a situação é preocupante e deve piorar se não forem tomadas providências. ‘‘É preciso fazer um levantamento detalhado para descobrir quem são esses indivíduos, de onde eles vêm e o que eles pretendem’’, sugere.
José de Deus diz que alguns punks e ‘‘carecas’’ já foram presos - e liberados em seguida por falta de antecedentes criminais - e questiona a ideologia defendida pelos grupos. ‘‘De um lado há os cabeças raspadas, que são nazistas. De outro, os punks, que utilizam como armas a própria roupa e acessórios, com pulseiras pontudas e correntes. Para defender a liberdade e a individualidade, eles não precisam ficar na rua como vagabundos. Se eles têm condições de trabalhar, por que não trabalham?’’, argumenta o delegado.
O punk ‘‘Minhoca’’ (ele prefere não ser identificado pelo nome, com medo de perseguições), de 23 anos, critica a observação do delegado e garante que os integrantes do grupo trabalham como autônomos. ‘‘Somos contra qualquer vínculo com o Estado e atuamos no meio alternativo, vendendo serigrafias, poesias, artesanato e doces.’’
Segundo ele, o conflito com os skinheads ocorre por divergências ideológicas. ‘‘Não toleramos o preconceito deles contra homossexuais, negros e os próprios punks. Além disso, enquanto nosso ideal é anarquista eles são de extrema direita’’, explica.
Atualmente há cerca de 40 punks em Curitiba - alguns deles ocupando casas abandonadas e vivendo em comunidade. ‘‘Dividimos as tarefas na cozinha, temos biblioteca e desenvolvemos atividades como teatro’’, explica ‘‘Minhoca’’.
Para ele, o movimento punk perdeu a força nos últimos anos porque a maioria dos integrantes só gostava do visual, mas não seguia a ideologia ou a cultura do grupo. ‘‘Muitos viraram até skinheads’’, comenta.
O adolescente Jonathan Vitor Lemos, de 15 anos, diz que não pode andar sozinho no calçadão da Rua XV, no centro de Curitiba, sem ser ameaçado pelos punks que circulam pela região. Ele é um dos integrantes do grupo ‘‘Carecas do Brasil’’ ou ‘‘Skinheads’’, que reúne cerca de 25 pessoas na cidade e rivaliza com punks e GLS (gays, lésbicas e simpatizantes).
Jonathan nega que o grupo seja fascista ou racista, rótulos geralmente associados aos ‘‘carecas’’. ‘‘Em Curitiba, o grupo fascista é o White Power. Nós não somos tão fanáticos. Somos nacionalistas, defendemos a soberania nacional e criticamos a entrada de multinacionais no País’’, diz.
Apesar de dizer que o grupo ‘‘não gosta de arranjar briga’’, Jonathan admite que, quando sai com outros carecas, sempre reaje a provocações de punks ou de GLS. ‘‘Há uns dois ou três anos, um amigo meu esfaqueou um punk na rua Saldanha Marinho’’, lembra. Nos fins de semana, eles saem uniformizados com coturnos militares amarrados com cadarço branco, calça jeans com a barra dobrada, camiseta branca e suspensório.
Além da distribuição de panfletos sobre o nacionalismo, os ‘‘carecas’’ organizam reuniões para discutir suas ideologias e no dia 7 de setembro saem às ruas com a bandeira nacional.
No Brasil, os skinheads estão concentrados principalmente em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Em Curitiba, o grupo perdeu a força na cidade após o assassinato de um ator negro atribuído a um integrante do White Power, no Largo da Ordem, em 1995. ‘‘Depois disso, ficamos muito visados e muita gente abandonou o movimento’’, comenta Jonathan.
(G.P.)

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