Público misto participa de orações
O aparato montado em torno de Patrícia Andrade ainda não é profissional, mas caminha a passos rápidos para isso. Nos dias de orações, quando a garota supostamente conversa com a Virgem Maria, para chegar até sua casa, na Rua Benedito Gonçalves da Silva, é preciso passar por seguranças vestidos com coletes de uma empresa do ramo. São eles e os cavaletes colocados a cerca de 50 metros da casa que evitam o trânsito de veículos e os ambulantes que ali são proibidos.
Nos portões da casa de Patrícia, alguns voluntários - de uma equipe que conta com 50 pessoas - distribuem folhetos com as músicas que serão cantadas durante a tarde de orações, servem água de um isopor adaptado e auxiliam os fiéis como podem. As pessoas começam a chegar cedo e, pontualmente às 15 horas, as orações são iniciadas. Uma voluntária puxa a reza. E o povo, que não pára de chegar, vai acompanhando. Todos com terços na mão, flores e garrafas d‘água vazias para serem enchidas na torneira que fica na gruta construída no pátio da casa. Uma tecladista e um flautista fazem o fundo musical para os momentos dramáticos como o transe. Alguns choram, a maioria reza em voz e olhos baixos.
No meio da multidão se misturam crianças, jovens, adultos e idosos, de todas as classes sociais. Pelos carros estacionados ali por perto - inclusive uma Mercedes último tipo - e pelas roupas que a maioria veste, percebe-se que ali estão também representadas todas as camadas sociais. Aliás, a maioria parece pertencer às classes média e alta. Alguns rostos são facilmente reconhecíveis das colunas sociais.
É o caso, por exemplo, de Francisco, 51 anos, que preferiu dar um nome fictício. Pecuarista em uma cidade da região, Francisco diz que vem frequentando as reuniões de oração há pouco mais de dois meses, embora não em todos os dias marcados. ‘‘Eu venho sempre que posso. Me faz muito bem, saio daqui com a alma leve’’, afirma.
Ele ficou sabendo de Patrícia por meio dos jornais mas só começou a frequentar o local por insistência de uma cunhada que não sabia dirigir em Londrina. ‘‘No começo achei que era bobagem, mais um golpe para enganar trouxa. Um dia minha cunhada me pediu para trazê-la. Entrei só para ver como era...’’, conta. Para ele, que não tem nenhum problema grave na família, não é preciso estar desesperado para rezar. ‘‘Pelo contrário, a gente tem que agradecer a Deus todos os dias e não só pedir quando tem algum problema.’’
Conforme o tempo vai passando, o pátio da casa vai se enchendo cada vez mais de gente. Até o ponto em que as pessoas vão procurando locais fora dos muros da casa para espalhar cadeiras e bancos que, previdentes, trouxeram de casa. É o caso da dona-de-casa Amélia Reis Canezin, 52 anos, que veio do outro lado da cidade com todos os filhos.
Segundo Amélia, que frequenta o local deste setembro do ano passado, só ouvir e rezar é suficiente. A primeira vez, confessou, foi por curiosidade. ‘‘Fiquei sabendo da menina por uma amiga e vim ver como era. Vi o sinal no sol. A emoção foi tanta que nem acreditei que estava vendo aquilo. Agora venho todos os dias que tem oração. Trouxe até uns parentes de São José dos Campos (SP) aqui’’.
Num terreno vizinho, um toldo azul serve como um precário ambulatório. Ali, segundo a voluntária Nair Delapria, 46 anos, um médico - também voluntário - está sempre de plantão para dar atendimento emergencial para quem passa mal. Menos na última quarta-feira. ‘‘Hoje ele ainda não chegou, não sei porquê. Mas nesta época de frio também não tem muito movimento aqui’’, justifica.
Segundo a voluntária, a maior procura do miniambulatório é no dos dias quentes, quando o calor faz a pressão de muita gente cair. ‘‘Às vezes também as pessoas vêm de longe, sem comer e acabam passando mal.’’. Nair não se importa de ficar mais afastada do centro dos acontecimentos. ‘‘Eu participo desde que Patrícia começou a orar, há três anos. E estou dando minha colaboração, atendendo quem precisa’’.
A conversa com Nair é interrompida pelo som da música ‘‘Ave Maria’’, executada no teclado e flauta. É o sinal, segundo a voluntária, que Patrícia está conversando com a Virgem. É o sinal também para que todos se concentrem no que está acontecendo dentro do pequeno pátio. As poucas conversas em voz baixa que se escuta são interrompidas. Todos prestam atenção ao que acontece dentro daqueles muros. O relógio marca 15h30. Respiração em suspenso, as pessoas aguardam o final da comunicação e as palavras da jovem, transmitindo a mensagem recebida, cerca de cinco minutos depois.
Depois da comunicação, todos voltam a rezar o rosário. Segundo um outro voluntário, José Simões, 44 anos, as orações devem se estender por mais uma hora e pouco. Ele, que começou a rezar o rosário há quase dois anos, se ofereceu como voluntário há dois meses para ajudar no que for preciso. Mas confessa: nunca viu nada no sol. ‘‘Eu já creio. Não preciso olhar para acreditar. Ela é abençoada.’’ (T.E.)

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