Depois de passar o ano de 1995 inteiro tentando receber o seguro obrigatório de seu carro, o publicitário curitibano Marcantoni Tavares, 46 anos, desistiu e resolveu apelar para a denúncia. Nesta semana, ele contou com detalhes a verdadeira burocracia que há por trás de um benefício que todo o motorista tem direito desde que esteja em dia com o pagamento da anuidade. Tavares diz que só mesmo apelando para o ‘‘doutor Palhares’’, o personagem criado pelo também publicitário Hélio Kaufmann, do Rio de Janeiro, para receber o seu dinheiro.
Kaufmann usou o ‘‘Palhares’’ para conseguir a liberação de sua aposentadoria. O ‘‘Dr. Palhares, chefe de gabinete’’ ligava para os departamentos da Previdência Social e em três meses pôde receber o dinheiro que não tinha conseguido em um ano como cidadão comum.
O publicitário curitibano diz que não chegou ao ponto de criar um personagem mas que teve vontade. ‘‘Pensei em criar o doutor Tavares’’, brinca ele com o próprio sobrenome. Toni, como gosta de ser chamado, diz que durante o período em que tentou receber o seguro, ouviu as mais variadas versões sobre o procedimento que deveria adotar.
Toni caiu num círculo vicioso. A seguradora mandou ele procurar um despachante. O despachante o encaminhou para o Detran, que por sua vez devolveu o caso para a seguradora, ou seja, para a estaca zero. ‘‘A única coisa que recebi foi um fax do tamanho de um caminhão, onde tinha uma lista infinita de documentos e provas que eu deveria apresentar.
A documentação não seria problema diante da má vontade das pessoas. ‘‘Cada vez que ligava, atendia uma pessoa diferente que me dava informações diferentes’’, conta o publicitário. Após uma peregrinação de meses, ele ouviu de um funcionário da própria Federação Nacional das Empresas de Seguros (Fenaseg) dizer que não valeria a pena tanto esforço. ‘‘Disseram para mim que o dinheiro era tão pouco, que eu não deveria me desgastar’’, relembra o publicitário. Pelo seus cálculos ele receberia R$ 700,00.
Adicentes Marcantoni sofreu um acidente em 29 de dezembro de 1987. Ele fechava o portão de sua casa, quando o carro sem freio de mão, desceu a rampa da garagem e o atingiu. Toni ficou tetraplégico, mas após alguns anos conseguiu recuperar os movimentos da cintura para cima. Hoje, ele anda de cadeira de rodas e não tem esperanças de voltar a andar.
Durante oito anos ele ficou sem saber que poderia receber o seguro obrigatório. ‘‘Como todo bom cidadão normal eu não sabia que tinha este direito’’, diz Toni. Mas ele também não sabia da burocracia que o iria perseguir. ‘‘São tantos obstáculos que a seguradora nos coloca, que a gente desiste’’, confessa.
Todos os donos de carros que tenham sido vítimas de acidente de trânsito, têm direito de receber o seguro do Consórcio de Seguro Obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT). Os detalhes sobre o seguro estão em seis itens, no verso da Carteira de Motoristas.

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