Curitiba A partir de setembro, o Código Brasileiro de Auto-regulamentação Publicitária terá novas normas éticas, mais detalhadas e abrangentes, para a publicidade direcionada a crianças e adolescentes. A matéria passa a recomendar que não sejam mais utilizados apelos imperativos de consumo (como, por exemplo, ''Peça pra mamãe comprar...'') e que crianças e adolescentes não sejam usados como modelos para vocalizar apelo direto, recomendação ou sugestão de uso ou consumo por outros menores (exemplo: ''Faça como eu, use...'').
Além disso, nenhum anúncio de produto dirigido a crianças e adolescentes deverá provocar qualquer tipo de discriminação, adotar formato jornalístico ou utilizar-se de situações capazes de infundir medo. As empresas não deverão empregar como modelos crianças e adolescentes em anúncios de bebidas alcoólicas, tabaco, loterias, armas de fogo e qualquer outro produto e serviço afetados por restrição legal.
A justificativa do Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária (Conar) é que crianças e adolescentes constituem um público com personalidade ainda em formação, com dificuldades para responder de forma madura a apelos de consumo.
Outras recomendações, já presentes no código, continuam valendo, como os itens que determinam que peças publicitárias não devem associar crianças e adolescentes a situações ilegais, perigosas ou socialmente condenáveis, impor a noção de que o consumo proporciona superioridade ou inferioridade ou provocar situações de constrangimento com o propósito de impingir o consumo.
O publicitário Mauro Moreira de Souza, presidente da seção paranaense do Sindicato Nacional de Agências de Propaganda (Sinapro-PR), considera ''oportunas'' as mudanças. ''Não podemos deixar de lado a função social da propaganda. As alterações reforçam a necessidade da publicidade ajudar na educação'', argumenta Souza. Ele acredita que atualmente não há excessos na publicidade direcionada para crianças e adolescentes. ''Mas é melhor prevenir.''
Renate Vicente, psicoterapeuta de família, explica que atualmente ocorrem muitos conflitos entre os valores passados pela família e os da sociedade. Segundo ele, os meios de comunicação podem influenciar nessa relação. ''A publicidade é tão insidiosa que pode transmitir para a criança o seguinte conceito: 'se eu amo, eu tenho que dar alguma coisa'. A idéia de que não é preciso 'ser', mas 'ter''', diz a psicoterapeuta. ''A criança não tem senso crítico formado, a capacidade de diferenciar entre querer e precisar. A publicidade tem que respeitar essa fase da vida da pessoa, que está em desenvolvimento''.
O comerciante Ademir Roberto Rhoden, pai de Paulo, sete anos, afirma que a publicidade direcionada a crianças e adolescentes o preocupa. ''Há uma indução ao consumo desenfreado'', acredita. ''Já aconteceu algumas vezes de o Paulo insistir em pedir, no supermercado e no shopping, para eu comprar um produto que ele viu na propaganda. Acho isso complicado, a publicidade induz ao consumo, e depois o pai tem que frustrar''
Rhoden aponta, entretanto, que seriam necessárias mudanças mais amplas. ''Acredito que normas éticas na publicidade não deviam ser segmentadas por público. Seria necessário fazer mudanças nas propagandas para todos os públicos. Na mídia, e não só na publicidade, há o estímulo à bebida, ao fumo, a banalização da violência. Isso me preocupa.''

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