Psicose eclode em momentos de exigência
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quinta-feira, 25 de abril de 2002
Érika Pelegrino Reportagem Local 
O caso de Maria das Dores Silva não é tão incomum quanto possa parecer. A psicóloga Maria Cecília Balthazar, de Londrina, explicou que ela possivelmente já tinha uma estrutura psicótica que exigia tratamento na infância e na adolescência.
Maria não tem responsabilidade legal por estes assassinatos, pois são frutos de uma exigência inconsciente, segundo a psicóloga.
A psicose, de acordo com Cecília, eclode em momentos de maior exigência de operações psíquicas, normalmente em ritos de passagens adolescência, casamento, gravidez, perdas, etc. Maria tinha 16 anos quando engravidou pela terceira vez e matou o bebê. Outras quatro gravidezes foram seguidas de assassinato dos bebês. Maria suspeita de uma oitava gestação.
Os dois primeiros filhos de Maria não foram mortos por ela. Segundo a psicóloga, a repetição das gravidezes e das mortes é uma tentativa de elaboração do problema psíquico.
A gravidez e o parto, embora sejam naturais, são muito complexos e produzem mudanças corporais e psíquicas importantes. Cecília explicou que ao engravidar a mulher faz uma revisitação à sua própria gestação, à forma de como foi cuidada. No nascimento do filho a mulher faz a passagem de cuidada para cuidadora.
Esta passagem é complicada e faz com que a mulher revisite alguns estados primitivos, afirmou. Quem tem uma estrutura neurótica a pessoa normal pode fazer uma depressão pós-parto de alguns dias ou até de dois meses, período em que percebe que é capaz de cuidar de seu bebê e então entra novamente em contato com a parte organizada de sua personalidade.
A mulher que tem uma estrutura psicótica praticamente não separa a realidade interna da externa. Para ela o bebê não tem a mesma conotação que para as outras mulheres. Ele pode tomar o lugar de um perseguidor, da causa daquilo que está lhe provocando mal-estar, de algo demoníaco, ou de outras formas que fazem parte do estado psíquico primitivo, explicou Cecília. O bebê passa a representar algo que está aparecendo e tinha que ficar escondido, como a sexualidade, ou algo demoníaco.
A mãe psicótica pode ainda se ver identificada com este bebê, quando ela própria não foi desejada. Desta forma ao matar o filho ela encerra a sua própria saga. A crueldade com que ela mata os filhos mostra a necessidade de exterminar, liquidar aquilo que lhe provoca mal-estar, afirmou a psicóloga.
As mães nestas condições normalmente sentem um clima sinistro, quando ficam a sós com o bebê. As alucinações nas quais os bebês estão vindo para matá-la, segundo Cecília, é um pedido de socorro. É um indício de que ela pode ser tratada. E se estiver grávida novamente, ela precisa ser cuidada, porque este bebê corre risco, alertou.


