O caso de Maria das Dores Silva não é tão incomum quanto possa parecer. A psicóloga Maria Cecília Balthazar, de Londrina, explicou que ela possivelmente já tinha uma estrutura psicótica que exigia tratamento na infância e na adolescência.
Maria não tem responsabilidade legal por estes assassinatos, pois são frutos de uma exigência inconsciente, segundo a psicóloga.
A psicose, de acordo com Cecília, eclode em momentos de maior exigência de operações psíquicas, normalmente em ritos de passagens – adolescência, casamento, gravidez, perdas, etc. Maria tinha 16 anos quando engravidou pela terceira vez e matou o bebê. Outras quatro gravidezes foram seguidas de assassinato dos bebês. Maria suspeita de uma oitava gestação.
Os dois primeiros filhos de Maria não foram mortos por ela. Segundo a psicóloga, a repetição das gravidezes e das mortes é uma tentativa de elaboração do problema psíquico.
A gravidez e o parto, embora sejam naturais, são muito complexos e produzem mudanças corporais e psíquicas importantes. Cecília explicou que ao engravidar a mulher faz uma revisitação à sua própria gestação, à forma de como foi cuidada. No nascimento do filho a mulher faz a passagem de cuidada para cuidadora.
‘‘Esta passagem é complicada e faz com que a mulher revisite alguns estados primitivos’’, afirmou. Quem tem uma estrutura neurótica – a pessoa normal – pode fazer uma depressão pós-parto de alguns dias ou até de dois meses, período em que percebe que é capaz de cuidar de seu bebê e então entra novamente em contato com a parte organizada de sua personalidade.
A mulher que tem uma estrutura psicótica praticamente não separa a realidade interna da externa. ‘‘Para ela o bebê não tem a mesma conotação que para as outras mulheres. Ele pode tomar o lugar de um perseguidor, da causa daquilo que está lhe provocando mal-estar, de algo demoníaco, ou de outras formas que fazem parte do estado psíquico primitivo’’, explicou Cecília. ‘‘O bebê passa a representar algo que está aparecendo e tinha que ficar escondido, como a sexualidade, ou algo demoníaco’’.
A mãe psicótica pode ainda se ver identificada com este bebê, quando ela própria não foi desejada. Desta forma ao matar o filho ela encerra a sua própria saga. ‘‘A crueldade com que ela mata os filhos mostra a necessidade de exterminar, liquidar aquilo que lhe provoca mal-estar’’, afirmou a psicóloga.
As mães nestas condições normalmente sentem ‘‘um clima sinistro’’, quando ficam a sós com o bebê. As alucinações nas quais os bebês estão vindo para matá-la, segundo Cecília, é um pedido de socorro. ‘‘É um indício de que ela pode ser tratada. E se estiver grávida novamente, ela precisa ser cuidada, porque este bebê corre risco’’, alertou.

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