Psicóloga passa
10 anos estudando
o serviço
Da Redação

Marcos BorgesTeseRosa Freitas: ‘Disque Amizade vai do fictício ao mundo real’Sem entender o que estava acontecendo com pacientes que chegavam ao consultório dizendo-se apaixonados por condes, dráculas e fadas, a psicóloga Rosa Lucila Fernandes Freitas decidiu entrar no 145 para desvender o mistério. ‘‘Cheguei a pensar em alucinação auditiva’’, conta, referindo-se aos comentários dos pacientes. Passou um ano apenas ouvindo as conversas e outros nove anos participando dos grupos, coletando informações. O conhecimento adquirido ao longo dos anos resultou em duas teses sobre o Disque Amizade. A de mestrado, defendida em 92, na Universidade de São Paulo, e a de doutorado, apresentada há dois meses na Universidade de Sorbonne, em Paris.
‘‘O 145 é o teatro da vida, o multimundo do imaginário onde cabe de tudo’’, diz a psicóloga. O sucesso da iniciativa, segundo ela, é atribuído à necessidade que as pessoas têm de conversar com o desconhecido, mantendo-se no anonimato, tendo a liberdade de se expressar.
No 145 os usuários utilizam nomes fictícios e os grupos são monitorados por telefonistas que entram em ação quando o nível das conversas começa a baixar. ‘‘O mais interessante é que o 145 vai do fictício ao mundo real’’, diz Rosa Freitas. Essa colocação, feita durante apresentação da tese, durante uma palestra na França, causou espanto. A psicóloga conta que o crédito ao que dizia foi dado após a interferência de uma participante, que morava em Minas Gerais, e também estava fazendo o doutoramento. ‘‘Ela se levantou e testemunhou que seu casamento era resultado de uma relação que começou através do Disque Amizade.’’
A autora da tese sobre ‘‘O desconhecido e o imaginário na telecomunicação’’ diz que o 145 instiga o social, a formação de grupos de amigos e também a ajuda mútua. Ela lembra a história de um rapaz, com diabetes, que havia fraturado a perna e recebeu alimentação, durante dois meses, sem saber nem conhecer o autor da ajuda. Rosa diz que o 145 permite ainda a assexualidade. Ela mesma foi o Barroso, a Joana e um travesti nas conversas em grupo. Constatou também que o 145 é ‘‘multifacial’’ e tem participação variada: empresários, domésticas e guardas noturnos que afastam o sono da madrugada embalados por uma conversa anônima.
(Luka Morais)

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