Psicóloga defende a
valorização da família
‘‘Muitos pais
justificam a violência
dizendo que apanharam
quando pequenos’’
Curitiba

Albari RosaMarlene da Silva, psicóloga: ‘‘Casa tem que ser espaço de proteção’’Valorizar a vida. Essa é a principal receita da psicóloga Marlene Mayer Alves da Silva para reduzir o nível de violência contra a criança. Há sete anos ela acompanha casos de pais agressores. Atualmente monitora 170 famílias com problemas de negligência no núcleo do SOS Criança do Pinheirinho.
Folha do Paraná - O que leva a criança a fugir de casa?
Marlene Alves da Silva - Um dos motivos é o fato de apanhar em casa. Quando fogem, as crianças temem voltar porque têm certeza de que vão ser castigadas. Chega a ser um problema cultural. Muitos pais justificam a violência dizendo que apanharam quando pequenos e nem por isso viraram bandidos. Um meio de sensibilizar é tentar colocá-los no lugar dos filhos, pois ninguém gosta de levar uma surra.
Folha - Quais são os fatores da violência?
Marlene - São vários. O alcoolismo, a frustração por não dar conta do sustento da família porque ganha pouco, o nervosismo. No caso do álcool, é complicado. A bebida camufla a culpa dos pais ou responsáveis, que acabam não se arrependendo. É diferente de estar nervoso, descarregar na criança, reconhecer o erro depois e se esforçar para evitá-lo.
Folha - Espancamento ou abuso sexual, qual agressão deixa mais sequelas?
Marlene - Todas as formas de violência trazem sequelas. A recuperação vai depender das referências que a criança tiver. Isso inclui o apoio de profissionais que trabalhem para resgatar sua auto-estima ou de pessoas da própria família que costumam socorrê-la em momentos difíceis. No caso do abuso sexual, ainda existe o tabu de denunciar. Certamente há mais casos do que os registrados. Até porque a criança que vive em um lar negligente faz parte de uma cadeia de aviltamento de direitos e fica exposta a todo tipo de violência, como a exploração sexual.
Folha - O SOS Criança monitora cerca de 500 lares negligentes. A senhora considera esse número alto?
Marlene - É um número alto, sim. Mas é preciso lembrar que existe um canal para denúncias com demanda crescente. Para reprimi-la, seria necessário maior envolvimento da sociedade, das autoridades da saúde, da educação eaté dos líderes religiosos em relação à violência familiar. Precisa ficar claro que a casa é um espaço em que a criança deve se sentir protegida, e não vítima.
Folha - Como se faz isso?
Marlene - Não houve uma grande campanha para se criar uma consciência ecológica? Basta fazer o mesmo para valorizar a vida. A mídia é fundamental. As relações familiares devem ser mostradas na TV de modo mais afetuoso. Por mais cômica que seja, a depreciação do ser humano vai para o inconsciente coletivo e pode contribuir para a perda de sensibilidade. (D.J.)

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