Josoé de CarvalhoCenas de guerraO Posto Rodoviário de Ibiporã foi depredado e depois incendiado: polícia apenas assistiu a ação dos vândalosA manifestação contra a morte do pastor licenciado José Idalécio Bueno, ontem pela manhã em Ibiporã (14 quilômetros de Londrina), terminou com a destruição total do posto da Polícia Rodoviária e da Delegacia da Polícia Civil da cidade. O prédio e os veículos depositados no pátio do Posto Rodoviário foram incendiados. Nada sobrou. Até às 21 horas de ontem, havia registro de duas pessoas feridas, mas sem gravidade.
O pastor morreu no dia 9, em frente ao posto rodoviário, onde teria sido espancado por policiais militares. A passeata, que começou na praça central de Ibiporã, acabou em frente ao posto rodoviário,na BR-369, onde a mulher de Bueno, Mara, e o filho mais velho do casal, Ricardo, 19 anos, fincaram uma cruz em memória do pastor.
A confusão teve início meia hora depois do fim da manifestação, quando parentes e amigos da família de Bueno já haviam deixado o local. O quebra-quebra começou quando um rapaz, aparentando 20 anos, atirou uma pedra contra a porta de vidro do Posto Rodoviário, que estava fechado, sem expediente. Uma caixa de vasilhames de cerveja encontrada no interior do prédio, com nota em nome do subtenente Gardin, exaltou o ânimo das pessoas que ainda estavam no lugar. Na tentativa de conter o pessoal, o comandante da 2ª Companhia da Polícia Rodoviária, José Rigone Filho, levou um dos manifestantes - um rapaz moreno aparentando 18 anos - para ver todo o posto rodoviário. Depois de verificar todos os cômodos e só encontrar papel, como ele próprio revelou aos colegas, tudo parecia ter sido contornado.
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Aos poucos, um grupo de manifestantes, composto na maioria por adolescentes e crianças, incentivado por uma pequena platéia, foram tomando conta do prédio. Usando pedras, paus, cones de sinalização, pedaços de ferro, foice e até butijão de gás, todos os vidros foram arrebentados. Do lado de dentro, os móveis foram derrubados, gavetas e armários revirados. Os manifestantes não pouparam nem mesmo os documentos e as bandeiras expostas em uma das salas. Sem noção dos riscos, muitos pais continuavam assistindo à depredação acompanhados de filhos pequenos. Algumas mães tinham bebês no colo. Uma delas chegou a bater na filha, de 4 ou 5 anos, porque a menina chorava e pedia para ir embora.
Insatisfeitos com a destruição, os manifestantes saquearam o prédio levando desde água mineral da geladeira a documentos. A cada novo objeto que pudesse denunciar o comportamento dos policiais, vinha a vibração multidão. Foi assim com um calendário de mulher nua encontrada nos pertences dos funcionários.
Policiais à paisana acompanharam toda a movimentação, tentando amenizar a situação através do diálogo. Um deles registrou parte da confusão com uma filmadora. Temendo o confronto, o comandante da 2ª Companhia não usou, no início da confusão, a força policial para tentar conter o vandalismo. Ele disse que não chamaria o Pelotão de Choque ‘‘numa esperança de que sem a farda não incitássemos o vandalismo’’, disse. ‘‘Isso é lamentável porque não traz a punição para quem cometeu o crime. Quem organizou a passeata não imaginou que não poderia controlar o povo.’’
Rigone afirmou ainda que os responsáveis pelo quebra-quebra serão punidos. ‘‘Isso é crime de dano. Estão destruindo o patrimônio público que não é da Polícia’’, disse. Segundo ele, a polícia vai tentar identificar os autores da destruição. ‘‘O problema é que temos muitas crianças no meio, mas os pais devem responder por isso.’’
A situação se agravou quando, depois de três tentativas frustradas, o prédio foi incendiado. O fogo começou por volta das 13h30. Pouco depois, as chamas tomaram conta do prédio e os veículos que estavam no pátio.
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De imediato, o Corpo de Bombeiros não foi chamado. Os policiais à paisana presentes no posto rodoviário temiam que o caminhão dos bombeiros também fosse depredado e os policiais nem conseguissem trabalhar.
Com as chamas aumentando, os vizinhos entraram em desespero. Os moradores da casa ao lado do posto rodoviário tentavam - em vão - conter a disposição dos manifestantes em colocar fogo nos carros, principalmente os próximos à cerca de divisa entre os dois imóveis.
As quatro crianças do casal, entre elas gêmeos de dois meses, foram levadas para a casa de parentes. ‘‘Em vez disso, por que não vão atrás dos assassinos? Isso vai prejudicar a gente’’, disse a mulher que não quis se identificar com medo de maiores complicações.

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