Marcelo AlmeidaPor JustiçaManifestantes seguiram em passeata até a Boca Maldita: casos lembrados ainda estão impunes Famílias de vítimas de violência policial realizaram ontem de manhã, em Curitiba, uma manifestação contra a impunidade. Cerca de 450 pessoas entre parentes, amigos, vizinhos e membros do Fórum Contra a Violência, do Instituto de Defesa dos Direitos Humanos, com o apoio da Anistia Internacional, fizeram uma passeata desde a Praça Santos Andrade até a Boca Maldita, no centro da cidade.
Cada família lembrou a morte de um parente e todos, sem exceção, pediam Justiça. Dos sete casos lembrados na manifestação, nenhum foi resolvido. ‘‘A informação que temos é que os processos não foram arquivados e estão em andamento. Mas a lentidão é inacreditável’’, afirma Eliane Chaerki, irmã da veterinária Luciane Chaerki, morta em novembro de 1995 com um tiro na nuca, quando estava dirigindo.
‘‘Não sabemos quase nada sobre este crime. Só que o tiro saiu de uma arma de 9 milímetros e que havia um policial num outro carro logo atrás do dela, que portava uma arma de 9 milímetros. Mas não houve investigações. A polícia alega que é um caso complicado, um processo melindroso, e fica por isso’’, desabafa.
A morte mais recente foi a de Natalício do Nascimento, 59 anos, ocorrida no dia 19 de outubro. Natalício estava com o filho, Eraldo, e os dois iam para Vila Verde 5. ‘‘Fomos abordados e meu pai, ao invés de colocar os braços para o alto, tentou pegar os documentos. Nessa hora levou um tiro no pescoço. O processo está em andamento. O policial não foi preso mas não está mais na PM’’, lembra Eraldo.
O caso que mais mobilizou a opinião pública foi do estudante Rafael Zanela, executado por policiais civis quando ia para um jogo de futebol. Os policiais forjaram ter encontrado droga e arma com o estudante para se justificarem. ‘‘Como todos os outros, os policiais ainda não foram punidos e ainda sofremos a tortura de receber em casa, várias vezes, telefonemas às 2 horas da manhã de alguém que nos lembra que naquela hora do dia 28 de maio haviam matado nosso filho’’, conta Elizabeth Zanela.
Além desses, estavam ontem na Boca Maldita, as famílias dos estudantes José Henrique Zanoncini Lins, 18 anos (morto por um PM depois de furar sinal vermelho) e Luciano Salkovski, de 20 anos (assassinado há dois anos por um PM), do serralheiro Carlos Alberto Culpi, de 18 anos, (morto em março de 90 por Policial Civil), e de Luis Antônio Ferraz, motorista de caminhão de 30 anos, morto pelo mesmo PM acusado da morte de Salkovski.
O policial militar que estava ontem em serviço na Rua XV, soldado Iachinski, disse que se for comprovado que foram mesmo policiais, eles devem ser punidos. ‘‘Mas tem que ver o outro lado. Muitas vezes trabalhamos em zonas de perigo e não fomos treinados para certas situações’’, reconheceu.

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