Vânia Moreira
De Umuarama
Em 15º lugar na fila de espera por um transplante de córnea, o comerciante Fernando Garcia, 18 anos, de Umuarama, não precisa mais da cirurgia. Ele foi o primeiro paciente no Sul do País a fazer o implante do Anel de Ferrara, uma prótese circular que corrige deformidades da córnea e, em muitos casos, elimina a necessidade de transplante.
A técnica, criada pelo oftalmologista mineiro Paulo Ferrara, já está sendo usada por vários médicos brasileiros e começa a ser adotada também em outros países. Simples, o método tem apresentado resultados surpreendentes e já tirou mais de uma centena de pacientes da fila de espera por um transplante de córnea.
A oftalmologista Edna Almodim, de Maringá, foi a primeira a adotar a técnica no Paraná, onde 1.448 pessoas estão na fila de espera por um transplante de córnea. Edna já operou 16 pacientes. ‘‘Todos se adaptaram ao anel, recuperaram bem a visão e até agora não sentiram necessidade do transplante’’, assegura a médica. Fernando Garcia foi o primeiro. Há dois anos ele percebeu que estava perdendo a visão do olho direito. A médica diagnosticou ceratocone, uma doença que provoca o crescimento exagerado da córnea e compromete a visão.
Ele ficou um ano na fila de espera. Como não conseguia usar lente de contato, necessária para conter o avanço da doença, estava perdendo a visão rapidamente. ‘‘Foi quando a médica me falou da cirurgia, que até então poucas pessoas haviam feito. Como levaria pelo menos mais um ano para um conseguir uma córnea, aceitei implantar o anel’’, conta. Quando fez a cirurgia, em julho do ano passado, já estava com 12 graus de miopia e astigmatismo. ‘‘Agora estou com apenas quatro graus e continua regredindo’’, disse.
Oftamologista em Belo Horizonte, Paulo Ferrara inventou o anel em 1985, quando começou a pesquisar uma forma de melhorar as condições de visão de pacientes que aguardavam um transplante de córnea ou que não conseguiam usar lentes de contato por causa do estágio avançado do ceratocone. A doença causa um abaulamento progressivo que afina a córnea e deixa a visão embaçada. O anel estica a córnea, corrigindo a deformidade.
Edna Almodim explica que o Anel de Ferrara estica a córnea regularizando sua superfície. A cirurgia é simples, dura 10 minutos e requer apenas colírio anestésico. O anel, uma prótese circular de acrílico milimétrica, é implantado no olho através de uma pequena incisão na córnea.
Vinte e quatro horas depois, o paciente já está enxergando. A miopia e o astigmatismo regridem e se estabilizam, em média, em três meses. A oftalmologista explica que o transplante de córnea também é simples, porém de recuperação mais lenta. Além disso, muitas vezes, o transplante não devolve ao paciente a visão completa, porque o processo de cicatrização pode acarretar graus elevados de astigmatismo.
Há três meses, Paulo Ferrara e Edna Almodim deram um curso para vários médicos paranaenses no Hospital Pró-Visão, em Maringá. O anel de Ferrara é fabricado pelo Centro de Oftalmologia Avançado (COA) de Belo Horizonte e custa R$ 1,8 mil.

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