Proteína instável causa câncer em SP e PR
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de novembro de 2001
Rafael Garcia<br>Agência Folha<br> De São Paulo 
Resultados de pesquisa que ajuda a explicar os motivos da alta incidência de câncer da glândula supra-renal em cidades do Paraná e de São Paulo serão divulgados hoje por um grupo de médicos que estuda diversos casos. O estudo sai publicado na ''Nature Structural Biology'' (structbio.nature.com), e destrincha a estrutura tridimensional da molécula alterada, o que sugere uma hipótese para explicar por que portadores da mutação são tão propensos a desenvolver o câncer de córtex adrenal.
Esse tumor de tipo raro, que ataca a superfície da glândula, ocorre no Paraná e São Paulo com frequência maior que a de qualquer outro lugar do mundo. A incidência local do tumor, que ataca majoritariamente crianças e adolescentes, é 15 vezes superior aos casos ocorridos nos Estados Unidos, por exemplo.
O médico Bonald Figueiredo, da UFPR (Universidade Federal do Paraná), criou testes de DNA para identificar os portadores da mutação, um instrumento importante para o tratamento do câncer de córtex adrenal. ''Com diagnóstico precoce, existe quase 100% de chance de cura, mas, no estágio mais avançado, a sobrevivência cai para 3%'', diz.
Ele e outros médicos brasileiros foram responsáveis por um estudo sobre a incidência do câncer e seu mecanismo de ação entre portadores da mutação. A pesquisa verificou que, nas pessoas com a mutação em apenas uma das cópias de seus cromossomos, o risco de surgir o câncer cai de 97% para cerca de 18%.
Para tentar encontrar com antecedência as crianças com o problema, médicos do Hospital de Clínicas da UFPR convocam famílias com histórico do câncer para exames frequentes.
Para os cientistas, ainda é um mistério o fator ambiental que pode ter gerado à mutação. ''Já pesquisamos alguns agrotóxicos, mas não encontramos nenhum ligado à mutação'', diz Figueiredo. Segundo ele, é possível que as primeiras pessoas com o problema tenham nascido no início do século, expostas a uma substância desconhecida.
Atrás das causas da mutação, cientistas estão mapeando casos em São Paulo e no Paraná para tentar encontrar alguma pista. Há quatro anos, médicos vêm pesquisando pacientes com uma mutação descoberta no gene que contém o código da molécula p53, ligada à maioria dos casos da região.
A p53, na verdade, é uma molécula importante para manter a integridade do DNA humano e evitar que alterações indesejadas causem a proliferação de células tumorais. ''É como um supervisor em uma linha de montagem. Quando ele vê que tem algo errado, manda parar tudo'', diz o médico brasileiro Raul Ribeiro, um dos autores do estudo realizado no Hospital Infantil de Pesquisa St. Jude, em Memphis (EUA).
O problema da mutação estudada é que ela compromete o bom andamento desse trabalho e facilita a proliferação de tumores. ''A mutação torna instável a estrutura da p53'', afirma Ribeiro. ''Do ponto de vista funcional, ela trabalha bem. Mas, em determinadas temperaturas e níveis de pH (acidez)'', ela fica mais frágil.''
Segundo os cientistas, isso poderia explicar porque a mutação faz surgir um câncer específico.
Existem outros tipos mais graves de mutação na p53, também relacionadas a tumores. Uma delas é característica da síndrome de Li-Fraumeni, que deixa seus portadores vulneráveis a inúmeros tipos de câncer.
A mutação encontrada nos brasileiros cria problemas para a estabilidade da estrutura da molécula. A p53 é feita de quatro partes iguais que, juntas, formam um diagrama de mesmo formato, visto de qualquer perspectiva. Essa instabilidade causa a separação das quatro partes, em ambientes inóspitos do corpo.
Enquanto alguns cientistas trabalham com a biologia molecular da mutação, outros continuam a procurar razões para ela estar presente em tantos habitantes do Paraná e de São Paulo.


