Proteção a depoentes falha no Paraná
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de maio de 2000
Valmir Denardin De Curitiba 
Estado tem dezenas de pessoas em situação de risco depois de denunciar crimes; maioria prefere o silêncio, com medo de que exposição aumente a insegurança
Ser testemunha de crimes no Paraná pode representar uma ameaça à vida ou, pelo menos, à tranquilidade das pessoas. O Estado tem dezenas de depoentes que aceitaram contar o que sabem à polícia ou a parlamentares que investigam a atuação do crime organizado. Tiveram a garantia de uma suposta proteção que acabou não se concretizando.
Após quinze dias de buscas, a Folha conseguiu localizar cerca de dez testemunhas que afirmam estar sofrendo ameaças de morte em consequência dos depoimentos que prestaram ou de denúncias que fizeram contra supostos criminosos. A maioria prefere não dar entrevista, temendo que uma nova exposição possa aumentar os riscos a que estão sujeitos.
Três delas ou seus parentes concordaram em falar. O resultado são relatos chocantes de intimidação, ameaças, atentados e até um suposto rapto, com eventual assassinato. Vivemos com medo. Não temos apoio, nem segurança. Acho que a polícia está esperando acontecer mais uma tragédia, resume Eliane de Lima Gonçalves, de Curitiba, que teve seu filho raptado há onze anos e levou à CPI nacional do Narcotráfico, em março, documentos que comprovariam o envolvimento de policiais civis com o crime.
Desde então, a família sofre ameaças e atentados. Eliane e o marido, José Vicente Gonçalves Filho, dizem que já pediram proteção às autoridades do Estado, mas não tiveram resposta. Nesses onze anos, nunca conseguimos sequer uma audiência com um governador, revolta-se Gonçalves Filho.
Outro caso retratado nesta reportagem é o da família de Maria de Lourdes Locks Boito, de Medianeira (Extremo-Oeste do Estado). Depois de acusar, em janeiro, fiscais da Receita Federal de integrar uma quadrilha de desvio de mercadorias apreendidas de sacoleiros, eles vêm recebendo ameaças. Mesmo assim, rejeitam a proteção, por considerá-la ineficaz.
Entre as testemunhas abordadas pela Folha, o caso mais dramático é de Rafael Walenga. O rapaz, que denunciou policiais civis de Cascavel de envolvimento com tráfico de drogas e receptação de objetos roubados, está desaparecido há dois meses e meio. Até sua mãe já perdeu as esperanças de encontrá-lo com vida.
Se realmente estiver morto, Walenga entrou para a extensa lista das testemunhas assassinadas no Estado somente neste ano. Segundo o deputado Ricardo Chab (PTB), relator da CPI estadual do Narcotráfico, nos últimos três meses pelo menos dez rapazes envolvidos com o tráfico de drogas na Região Metropolitana de Curitiba foram mortos. Chab diz ter certeza que a motivação foi queima de arquivo. O pior é que as famílias têm medo de falar e denunciar os assassinos, lamenta o deputado.
O presidente da CPI, Algaci Tulio (PTB), diz que a insegurança é tão grande que muitas testemunhas, mesmo presas, se recusam a dar depoimento à comissão, por não confiar na proteção do Estado. A maioria dos que aceitam impõe a condição de ser interrogada de capus. Temos o caso de um depoente que já sofreu ameaças de resgate de dentro do quartel onde ele está preso, conta o deputado.
Em Foz do Iguaçu, já foram assassinadas duas testemunhas de uma chacina ocorrida em 10 de outubro de 1997, na qual quatro jovens três deles menores de idade foram mortos por nove policiais civis na Favela Monsenhor Guilherme. No Natal de 1998, foi morta Sônia Maria Medina, 33 anos, mãe de um dos adolescentes assassinados. Em janeiro deste ano, Adolfino Britez Rodrigues, outra testemunha, também foi assassinado. Os dois haviam pedido proteção à Polícia Federal, por meio da Promotoria de Justiça.
Segundo o promotor de Justiça Renan Gabardo Fava, que acompanhou o caso na época, os serviços de proteção demoraram para agir. Após a morte de Rodrigues, apenas uma das seis testemunhas sobreviventes recebeu segurança especial. Durval Messias, carpinteiro de 52 anos, está morando em um local desconhecido, fora de Foz do Iguaçu. Era dele o cômodo onde os adolescentes foram mortos. A proteção chegou. Mas veio tarde demais, lamenta Fava.


