Começou nesta terça-feira (11) a 2ª Semana Internacional da Difusão da Cultura Surda, no campus da UEL (Universidade Estadual de Londrina). Promovido pelo departamento de Educação, o evento é totalmente em Libras (Língua Brasileira de Sinais) e tem o objetivo de destacar o protagonismo surdo.

Jean Michael Santos ministrou curso sobre a língua de sinais americana
Jean Michael Santos ministrou curso sobre a língua de sinais americana | Foto: Micaela Orikasa - Grupo FOLHA

As palestras e os minicursos contam com a presença de intérpretes para o público ouvinte. “Não é um evento com palestrantes ouvintes que vão dizer para os surdos a melhor maneira de seguir a vida ou de como adotar melhores estratégias para a educação. É o inverso e o foco é na cultura surda", comenta Caroline Rampazzo Alves.

Ela é intérprete de Libras na UTFPR-LD (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) - campus Londrina - e integra a comissão organizadora. “Estamos abrindo esse espaço para que eles mostrem suas competências. Temos convidados surdos atuantes na política, nas universidades, como docentes e alunos de pós-graduação, além de intérpretes, para apresentarem suas estratégias e trabalhos para a comunidade ouvinte também”, afirma.

A professora no departamento de Educação da UEL, Thalita Gabriela Comar Chrallo, lembra que a Libras foi reconhecida como uma língua oficial no Brasil desde 2002, mas ressalta que muitas pessoas ainda desconhecem esse fato, assim como “não sabem que os surdos têm uma cultura, uma identidade, que existe uma comunidade que lutou por todos os direitos que os surdos possuem hoje, inclusive pelo direito à lei do reconhecimento da língua”.

ASL

Assim como o Brasil possui Libras, os Estados Unidos utilizam a ASL (American Sign Language) e essa novidade para muitos brasileiros foi o tema do minicurso apresentado por Jean Michael Lira Santos, na manhã de terça. Ele é formado em Letras-Libras pela UFSC e estagiou na Gallaudet University, em Washington, onde aprendeu a língua de sinais americana. Tal conhecimento possibilitou sua atuação como intérprete de ASL no Brasil.

Entre os participantes do minicurso de ASL estava a professora de Apucarana (região metropolitana de Londrina), Débora Tasaca. Ela aprendeu Libras há 4 anos, pois em 2012 perdeu a audição do lado esquerdo. "Estar aqui é uma forma de adquirir mais conhecimento, de me inteirar sobre a cultura e me surpreendeu muito poder aprender um pouco a língua americana porque é uma comunicação importante”, diz.

PROGRAMAÇÃO EXTENSA

Programação inclui videoconferência internacional e lançamento de livros

A programação é extensa e segue até sexta-feira (14). Entre os participantes estão Karin Lilian Strobel, que ocupou até o mês passado a Secretaria de Modalidades Especializadas de Educação do Ministério da Educação, como diretora de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos; Ronice Muller de Quadros, autora de livros sobre o tema e docente na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e Rosani Suzin, que é surdo cega e atua na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos, em Curitiba.

As temáticas, segundo Alves, são bastante diversificadas. “Temos desde lançamentos de livros, mães que contam as histórias de desenvolvimento dos filhos surdos, poesia e escrita surda, Libras tátil (para surdos cegos) e na área de educação teremos abordagens sobre as políticas em discussão e estratégias no Enem”, comenta.

A participação internacional foi por meio de videoconferência com professores da Gallaudet University, nos Estados Unidos, que é a única universidade no mundo cujos programas são desenvolvidos para pessoas surdas. A palestra de Matthew Malzkuhn e Niesha Washington-Shepard aconteceu na abertura oficial do evento, ontem à noite.

'É uma luta que precisa continuar'

A UEL possui atualmente dois professores surdos e para a intérprete Caroline Rampazzo Alves a realização do evento também tem a missão de fomentar um maior espaço de debate e práticas voltadas à educação de surdos. "A ideia é que a UEL também seja um alicerce para que ela tenha essa força surda, assim como acontece em Florianópolis, onde realmente se discute o desenvolvimento dos surdos”, diz.

Para o professor da Unifap (Universidade Federal do Amapá), Douglas Komar Silva, 26, que também participa da Semana, “a educação dos surdos é uma luta que precisa continuar, promover mudanças na questão das leis e acessibilidade, e discutir mais a presença dos intérpretes e a inclusão na educação”.

Ele nasceu em Londrina e com 1 ano e 4 meses teve perda auditiva por causa de uma meningite. Estudou no Iles (Instituto Londrinense de Educação de Surdos) e se formou em Letras-Libras e também em Sistemas de Informação.

Atualmente, Silva faz mestrado na área de Educação na Unesp (Universidade Estadual Paulista) e tem como objeto de pesquisa a atuação dos profissionais que concluem o curso de Letras-Libras. “Aonde estão essas pessoas que estão se formando? Estão trabalhando em quais espaços? Porque isso é um problema”, completa.

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