Curitiba - A cada 100 casos de abertura de inquéritos da Polícia Federal (PF) para investigação de tráfico de seres humanos, para prostituição em outros países, seis referem-se a paranaenses. São 32 inquéritos policiais que incluem o Paraná na rota nacional dos traficantes. De acordo com o Ministério da Justiça, nos últimos 18 anos foram instaurados no Brasil 577 inquéritos sobre o tema.
As principais investigações tiveram início em 2004, quando o assunto começou a ganhar mais destaque com a mobilização de parlamentares preocupados com os casos envolvendo adolescentes.
Ao todo, são 131 rotas de tráfico de mulheres e adolescentes já identificadas e catalogadas na Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual Comercial (Pestraf). Destas, 28 passam pelo Sul do Brasil. As mulheres são encaminhadas principalmente para países como Espanha, Holanda, Venezuela, Itália, Portugal e Paraguai.
Dos mais de 5 mil municípios brasileiros, 937 foram identificados como os principais impulsionadores da exploração sexual. No Paraná seriam 56 municípios. O Estado é o quinto do País com o maior número de casos de tráfico de seres humanos, sendo superado apenas por Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Envolvidos e indiciados - O relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Exploração Sexual Infantil do Congresso Nacional indiciou, em julho de 2004, cerca de 250 pessoas (entre políticos, juízes, pastores, pais de santo, empresários) que estariam envolvidas com a exploração de crianças e adolescentes.
Nas investigações foram constatados casos de tráfico interestadual e internacional de seres humanos (mulheres e adolescentes) para fins sexuais. A Pestraf demonstrou algumas destas rotas em dezembro de 2002. As mulheres do interior do Paraná, segundo a pesquisa, eram levadas via aérea para a Espanha e para Córdoba (Argentina).
Em Foz do Iguaçu, as mulheres eram encaminhadas para Buenos Aires (Argentina) e para Espanha por via aérea, e para os municípios de Hernandies (Paraguai) e Catuetê (Paraguai) por via terrestre. Em Curitiba, os destinos das mulheres estavam sempre em municípios espanhóis. Outra rota passaria por Sarandi, em via terrestre, e levaria as mulheres traficadas para Catuetê (Paraguai).
O estudo demonstrou que mais de 75 mil brasileiros estariam na União Européia trabalhando como profissionais do sexo.

Pesquisa indica um perfil padrão 
 Curitiba – O perfil das mulheres levadas era basicamente o mesmo: negras ou mulatas, até 27 anos, de origem humilde. Espanha e Holanda são os países preferidos dos traficantes de seres humanos. Mas, para despistar as autoridades, muitas eram enviadas antes para outros países como Suriname, Venezuela e República Dominicana.
  Ao chegarem nos países onde trabalhariam, os traficantes pegavam os passaportes até que as mulheres pagassem dívidas de alimentação, avião e hospedagem. Muitas foram mantidas em cárcere privado. As investigações, relatadas na pesquisa feita pelo Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes (Cecria) demonstraram ainda que o tráfico de mulheres e adolescentes no Brasil usaria 241 rotas domésticas e internacionais.
  Os casos do Paraná estão sendo investigados pela Central de Inteligência. Segundo um dos agentes, que preferiu não ser identificado por trabalhar com assuntos sigilosos, a dificuldade é ter denúncias sobre estes casos. Normalmente as mulheres deixam o Brasil sem contar para os familiares como conseguiram dinheiro para viajar.
  Elas acreditam que trabalharão e receberão muito dinheiro no Exterior – podendo voltar com condições de dar melhor vida para a família. Como normalmente são humildes, muitas famílias não são esclarecidas e não conseguem orientar as vítimas no sentido de verificar melhor o local onde ficarão nos países europeus.(L.P.)

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