PROSTITUIÇÃO - Escravas das ruas de Londrina
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de outubro de 2011
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
Percorrer alguns pontos de Londrina pode revelar uma realidade que muitos desconhecem ou preferem não enxergar: a prostituição infantil. Com uma estrutura corporal que deixa evidenciada a pouca idade, essas meninas abordam ou são abordadas em plena luz do dia, em locais de grande circulação de veículos e caminhões.
Por programas baratos, elas se ''vendem'' para comprar drogas como crack. Muitas delas sonham com uma vida bem diferente da qual encaram diariamente nas ruas, mas a dependência e o vício das drogas tiram a pouca força que lhes restam nos momentos de sobriedade.
Para constatar esse cenário, a reportagem da FOLHA - sem identificação - percorreu alguns lugares. Na Avenida Brasília (BR-369), o repórter foi abordado assim que parou o carro nas imediações da Vila Marízia, Região Central. Era perto das 11 horas. Ao surgir pela janela, a garota se ofereceu para realizar um programa, com naturalidade.
À noite, a reportagem voltou às ruas e presenciou adolescentes fazendo abordagens a motoristas na Vila Yara (zona Leste). Segundo uma das garotas, o preço ''depende do potencial do cliente''. Um homem, que disse ser cliente, afirmou que já saiu com uma menina por apenas R$ 2.
Sem preservativo
A prostituição praticada por menores tem relação com drogas e pobreza. Em muitas histórias ouvidas pelo ex-conselheiro tutelar e educador social Elizeu Euclides Barboza de Carvalho, o contexto é sempre o mesmo. Por diversos fatores sociais, elas perdem o vínculo familiar, vão para as ruas, se viciam no crack e outras drogas e acabam fazendo programas para sustentar a dependência.
''Nós temos adolescentes na faixa de 12 a 16 anos que cobram o valor de uma pedra de crack. Pelo menos dez meninas fazem isso com muita naturalidade e há bastante tempo'', afirmou. De acordo com Carvalho, as meninas cobram R$ 30 para fazer de tudo. ''A usuária de droga vai baixando o preço até o valor da pedra de crack, que é de R$ 5. Elas fazem mais de cinco programas por dia. Muitas nem usam preservativo'', comentou.
Abordagem
De acordo com o educador social, muitas das meninas que estão na rua se prostituindo experimentam no início uma sensação falsa de liberdade. ''Porém, ao se tornar dependente da droga, existe uma transição brusca e dolorosa da fase de aventura para a fase de sofrimento. E essa sensação se transforma em fissura, angústia e necessidade'', ressaltou.
O Conselho Tutelar recebe diversas denúncias por meio da população. Na abordagem, eles tentam incentivá-las a sair daquela situação de risco e receberem medidas de proteção. Foi nesse contato, por durante seis anos, que Elizeu criou um vínculo com essas meninas.
A conselheira Leoni Alves Garcia, que atende a Zona Norte e demais regiões durante os plantões noturnos, afirmou que, muitas vezes, a própria família liga para delatar alguma suspeita, seja pela ausência ou pela mudança de comportamento da adolescente. Em casos de denúncia, ela explicou que raramente conseguem abordar a menor nas vias públicas, pois geralmente não permanece no local até a chegada da equipe.
Leoni também cita a Ação Integrada de Fiscalização Urbana (Aifu) do Ministério Público e demais órgãos de proteção à criança e adolescente, que eventualmente percorre motéis, saunas e até bares e lanchonetes.
Com experiência de três anos no Conselho, Leoni estima que cerca de 15 casos foram confirmados pela Aifu. A faixa etária mais incidente, segundo ela, é dos 13 aos 16 anos. ''Na abordagem, elas até aceitam uma aproximação, mas muitas são resistentes a cumprir os encaminhamentos'', revela.
O Conselho Tutelar integra a rede de proteção à criança e adolescente que envolve o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas III), a Promotoria de Justiça da Vara da Infância e Juventude, unidades básicas de saúde e entidades sociais. (Colaborou Vítor Ogawa)


