O proprietário rural José Augusto Corrêa Sandreschi, 75 anos, e o líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stedile, têm pelo menos um ponto de vista comum: ambos vêem a reforma agrária no País como necessidade urgente. Cidadão honorário do Paraná, ex-professor universitário e ex-empresário (Transparaná), Sandreschi exerce atualmente a profissão de advogado e é presidente da Associação dos Amigos do Festival de Música de Londrina. Há cerca de dois anos, chegou a enviar uma carta ao próprio Stedile, propondo-se a ‘‘ajudá-lo a promover a reforma agrária’’. Não recebeu resposta.
Cesar Augusto‘Tive de retirar o
que pude. Abateram
até touro de
raça na fazenda’Escrever cartas, aliás, parece ser um hábito do advogado. Quando a sua fazenda (na verdade, como ele faz questão de frisar, a propriedade pertence à sua mulher, Daisy Prochet Sandreschi) foi invadida por integrantes do MST, em dezembro de 1996, Sandreschi disparou a caneta e enviou correspondências ao presidente Fernando Henrique Cardoso, ao ministro da Política Fundiária Raul Jungmann, e a várias outras autoridades, incluindo-se aqui uma ‘‘autoridade da mídia’’, o humorista Jô Soares (que teria defendido o MST em um dos seus programas).
Apesar dos problemas que teve com a ocupação da Fazenda Três Córregos, em Querência do Norte (noroeste do Paraná), Sandreschi afirma que não têm raiva dos sem-terra: ‘‘Só uma mágoa, talvez, por eles terem praticamente destruído o que era uma fazenda-modelo’’, acrescenta. O advogado afirma ser contra a violência - de qualquer forma - e defende um programa de reforma agrária para evitar o agravamento dos conflitos no campo. ‘‘Mas é preciso que fique claro: reforma agrária é uma coisa, invasão de terra é outra!’’, diz ele.
Folha - O sr. é realmente a favor da reforma agrária?
SandreschiSou fã incondicional de uma reforma agrária programada, projetada e vou dizer mais: nesta fase da minha vida, me ofereceria - como me ofereci ao sr. Stedile através de carta - para ajudar graciosamente a promovê-la.
Folha - Mas entre a sua proposta e a do MST provavelmente há muita diferença, não?
Questão agráriaSandreschi: ‘‘Se a sua casa estiver precisando de pintura, você vai perder a propriedade? Isto é confisco’’Sandreschi - Se pensarmos bem, a reforma agrária no Brasil poderia ser feita com um pé nas costas. Não é tão difícil assim assentar esta gente. Terra não falta. Aliás, para usar uma expressão cristã, eu beijaria os pés daquele que aceitasse uma terra para trabalhar, num País em que a cada dia fica mais difícil encontrar alguém que queira verdadeiramente se dedicar à produção rural. Agora não sei se o MST tem realmente interesse em resolver o problema. Por que os sem-terra querem logo aquela área onde já existe uma atividade? Por que querem a propriedade onde outro já exerce esta atividade?
Folha - Qual a sua opinião sobre o MST?
Sandreschi - O MST se constituiu numa força paralela superperigosa. Dentro de um país só deve existir uma força, a do governo. Quando as forças se proliferam há risco. Por isso o exército é nacional. Mas nesta idade, preocupam-me principalmente os procedimentos culturais. Criou-se uma mentalidade naquela criançada, de que, quando você quer alguma coisa, é só tomar. Vai ser muito difícil transformar a cultura adquirida pelas crianças nesses movimentos. Como aqueles menores em São Paulo, no meio da rua, assaltando, agredindo: tenho pena, me entristece. Será que eles aceitariam entrar numa escola passar oito horas?...Não sei.
Folha - Mas o MST não faz justamente um trabalho de ressocialização destas crianças com as escolas nos assentamentos?
Sandreschi - Cada país define a sua forma de comportamento, a sua cultura-padrão. O que nós não podemos é ter uma cultura paralela. Se o MST for a cultura do Brasil, apóio. Quem não estiver satisfeito que vá embora. Tem que ter uma cultura só, como teve na Rússia, no tempo do Lenin. Lá, eles levaram 70 anos para descobrir que estavam errados e vão levar mais uns 30 para corrigir, mas tudo bem.
Folha - Em termos práticos, que tipo de reforma agrária o sr. sugere?
Sandreschi - Não tenho uma solução no bolso. Acho que ela deve ser encontrada por um grupo de trabalho, que seria composto por pessoas de alto respeito, de credibilidade. Não apenas teóricos, naturalmente, mas gente que conhece o problema na prática. Como foi feito com o projeto da reforma tributária.
Folha - Este grupo seria formado sem restrições ideológicas?
Sandreschi - Ideologia é política. Reforma agrária é economia. A idéia é promover uma reforma mais humana, de sentimentos mais elevados. O projeto teria de ser voltado para o social, permitindo às pessoas uma vida digna, e não esta que levam morando em barracas de lona, em casas de pau a pique. Por isso, tudo teria de ser bem planejado e executado em cinco, oito ou 10 anos, dependendo dos recursos. Ao final deste prazo, teríamos, enfim, uma reforma agrária de verdade.
Folha - Pela proposta que o sr. imagina ser a melhor, os sem-terra seriam deslocados para novas fronteiras agrícolas?
Sandreschi - Não necessariamente. Acho que está evidente que os sem-terra não querem ir para uma nova fronteira. Talvez fosse mais coerente concentrar esse pessoal, vamos dizer aí em 10 mil hectares - terra boa, é claro -, formando uma região dos sem-terra. Depois eles poderiam pagar alguma coisa, 5% de sua produção, por exemplo, durante determinado período. Algo assim como ocorre na solução da falta de moradias nas cidades.
Folha - Obviamente, só a terra não é suficiente para se começar a produzir...
Sandreschi - Claro. Não poderiam faltar também apoio logístico e orientação através da Emater, do Iapar etc, para que os assentados consigam boa produtividade. No mercado competitivo de hoje, não é produzindo 60 sacas de milho por alqueire que vai se resolver o problema do Brasil. A economia mundial produz de 600 a 700 sacas por alqueire. Aceita-se a economia de subsistência durante uma temporada, mas esse pessoal precisaria ser melhor preparado. Plantar com catraca não dá. Existe tecnologia mais avançada e eles teriam de se adaptar a ela.
Folha - Como ocorreu a ocupação da propriedade de sua família?
Sandreschi - A Três Córregos foi invadida no dia 31 de dezembro de 1996. A área total da fazenda é de 150 alqueires, sendo que 50 destes são mata tombada, ou seja, uma reserva ecológica, onde há árvores de 800 a 1.200 anos, animais e pássaros silvestres. A propriedade tinha 300 cabeças de gado e 40 alqueires de mandioca, com programa para mais 40. Por ser poeta, tinha idéia de um dia transformar aquilo num spa ecológico. Era um modelo de fazenda, de dedicação, não apenas de visão comercial, mas de preservação que fazíamos há 50 anos. Ali promovemos missas campais e corais dentro da mata. Uma coisa maravilhosa. Do dia para a noite foi simplemente invadida.
Folha - O sr. e sua família estavam na área quando houve a ocupação?
Sandreschi - Só nos afastamos dela porque estávamos em férias. Recebemos a notícia em Caiobá (litoral paranaense). Até a data foi bem escolhida pelos sem-terra: havia uma sucessão de feriados, estava tudo fechado, o Fórum fechado durante uma semana. Mesmo assim, a reintegração foi concedida 15 dias depois. Expedido o mandado para reintegração, o que aconteceu? Houve resistência. Eles disseram: ‘‘Daqui ninguém sai’’. Um desrespeito total à autoridade. A juíza da Comarca de Loanda solicitou reforço policial para retirar os invasores. Mas estamos esperando até hoje. Se eles não tivessem saído por conta própria...
Folha - E por que eles decidiram sair?
Sandreschi - Não sei. Saíram como entraram. Acho que perderam o interesse pela propriedade. É um movimento irracional. Eles ocuparam a fazenda praticamente por um ano, intimidaram os agricultores que eram nossos parceiros para que colhessem toda a plantação de mandioca com seis a oito meses, sendo que o plano era colher quando tivesse um ano e meio. Foi um prejuízo fantástico. Depois abateram várias reses lá dentro, abateram até touro de raça. Tive de retirar de maneira rápida o que pude, porque iam acabar com tudo. Depois de um ano de esbulho, roubo, intimidação, recebo a terra sem nada, nenhuma cabeça de gado, nenhuma agricultura. Erosão e abandono. Quem investiria nesta terra que um dia já foi modelo de pequena propriedade?
Folha - O sr. já retomou a área?
Sandreschi - Um conhecido tem lá umas 300 novilhas. Mas eu preciso comprar equipamentos e repor os rebanhos dos quais tive de me desfazer para que não fossem sacrificados. Além disso, estou com vontade de notificar as autoridades competentes para saber se garantem a integridade física, minha e de minha família. Meus netos têm paixão por aquilo, mas tenho medo de levá-los até lá novamente. Quem garante a nossa integridade e a integridade econômica do investimento? Se garantirem, retomo a fazenda. Caso contrário, não. E aí gostaria que encontrassem uma solução mais interessante.
Folha - O sr. concorda com o conceito de terra improdutiva nas desapropriações promovidas pelo governo?
Sandreschi - Esta tese é ridícula. Se a sua casa estiver precisando de pintura, você vai perder a propriedade? Isto é confisco.
Folha - Então, apesar do aspecto social que envolve a questão agrária, o sr. considera toda invasão de terra um crime?
Sandreschi - Se realmente há uma atitude ilegal, de desrespeito às leis, como é a invasão de propriedade, a polícia deve agir. Como advogado, já discuti com gente muito mais capaz do que eu, e eles aceitaram que só é caso para reintegração quando existe dúvida sobre a posse. Se alguém invadir a sua casa, você obviamente não vai entrar com pedido de reintegração de posse. Vai chamar a polícia e pronto. Então, se no caso das invasões de terra a polícia tem sido passiva - e, politicamente, esta pode até ser uma opção, desde que o governo indenize justamente os proprietários -, que se faça a coisa certa.
Folha - Como devem agir os proprietários que tiverem áreas ocupadas?
Sandreschi - Devem recorrer à justiça, às autoridades, às associações, corresponder, reclamar. As associações devem dar maior apoio, até mesmo financeiro, para as ações dos seus associados. É preciso haver mais unidade. Quando ocorre uma invasão, há o direito possessivo que precisa ser respeitado. Particularmente, não concebo defender-se de uma agressão com outra agressão. Acredito sempre no caminho da lei. Não havendo respeito à lei, ninguém mais tem segurança.

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