Prontos para morrer
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de junho de 2009
Cláudia Palaci<br> Equipe da Folha 
Curitiba Do início deste ano até o fim de maio, cinco dos 13 presos por tráfico internacional de drogas no Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu engoliram ou introduziram cápsulas de cocaína na região anal ou genital. Dois paraguaios, duas paraguaias e um argentino. A estratégia é cada vez mais utilizada pelo tráfico. Mulheres e adolescentes de baixa renda e pouca instrução educacional são os mais procurados para o serviço. Eles são as mulas do crime organizado.
A droga adquirida no Paraguai e Venezuela tem como destino final diversas cidades da Europa. Como as formas de carregamento são criativas e perigosas para a saúde, a morte é um risco permanente.
Uma das paraguaias, presa em abril, confessou a ingestão de 80 cápsulas de cocaína e a introdução no ânus de outras 20, após o procedimento normal de revista no aeroporto de Foz. Se uma unidade estourasse, seria morte na certa (veja box). Segundo a Polícia Federal (PF), a quantidade somava 1,5 quilo de droga. No hospital, a mulher levou três dias para expelir todas as cápsulas. O destino final era Madri, na Espanha. Um rapaz, também paraguaio, precisou ser operado para a retirada de 50 cápsulas de cocaína do intestino. Isso porque os remédios que provocam a expulsão não fizeram efeito.
Os exemplos retratam a realidade de pessoas que são aliciadas pelo tráfico e atraídas pela ideia de dinheiro fácil, como aponta o delegado da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), Fábio Renato Amaro da Silva Júnior. São pessoas com grandes dificuldades financeiras que enxergam no tráfico uma oportunidade de sobrevivência. A maioria é recrutada no Paraguai, afirma.
Os traficantes exploram a miséria e a simplicidade porque são pessoas mais baratas, que não entendem o comércio lucrativo do tráfico. Eles não querem sócios, querem mulas, analisa o assessor de comunicação da PF, Nasser Sati. Um dado que explica a preferência por mulheres é a tolerância à dor em relação aos homens. As mulheres têm mais tolerância ao processo de deglutição. Elas são encontradas em bares e ali mesmo fazem um teste com alguns objetos do tamanho da cápsula para garantir que aguentariam ingerir a droga embalada, conta.
Para o delegado do Denarc, as punições diferenciadas para os adolescentes são vantagem para o tráfico. Ele observa um recrutamento crescente nesta faixa etária. Quando ele cai em uma ação policial pela primeira vez, fica em média 45 dias sob custódia do Estado para depois ser encaminhado às atividades socioeducativas. Isso tem um custo muito baixo para o traficante, que fica do lado de fora sustentando a família do adolescente. Um adulto pode ficar por cinco anos, relata. Silva Junior refere-se a um código interno dos criminosos, que prevê o sustento do preso quando ele está na cadeia e quem depende dele.
Assim, o tráfico mantém o controle sobre um arquivo vivo porque sabe que ele tem vantagens na Justiça quando delata o esquema (de tráfico), acrescenta o policial. O mesmo código, segundo o delegado, exige que o material apreendido deverá ser pago pela mula quando tiver sido pego por dar mole.
Sati informa que em média uma mula ganha entre US$ 3 mil a US$ 5 mil para transportar o material para fora do Brasil. A rota principal é a Europa o valor de venda da droga é maior e os países não exigem visto de brasileiros. O argentino preso confessou à Polícia Federal que recebera US$ 2 mil para viajar até Istambul, na Turquia. Uma pessoa leva cerca de três dias para expelir as cápsulas, em um quarto de hotel, sob a vigilância cerrada dos receptadores, diz o assessor da PF.


