‘‘Réu: Ademir Pontes. Crime: ser população de rua e doente mental. Artigo: discriminação social e descaso médico. Condenação: prisão perpétua e morte.’’ Com essas palavras o morador de rua José César Carauta da Fonseca, 53 anos, protestou ontem com um cartaz no Cemitério Jardim da Saudade, na zona norte de Londrina, durante o sepultamento do companheiro Ademir Pontes, 43 anos.
Pontes era ex-andarilho, deficiente mental e morador da Casa do Bom Samaritano havia três anos. Ele morreu sábado durante uma cirurgia no abdômen no Hospital Universitário (HU), depois de esperar durante cinco dias por uma vaga. Antes de ser encaminhado ao HU, ele foi atendido no Hospital da Zona Norte (HZN). Colegas e funcionários da Casa do Bom Samaritano acusam o HZN de negligência. A Promotoria Especial de Defesa da Saúde Pública abriu procedimento administrativo para apurar a morte do ex-andarilho.
Segundo a assistente social da Casa do Bom Samaritano, Maria Lucas de Lima, no dia 2 de junho Pontes sentiu fortes dores na barriga e foi encaminhado ao HZN. Atendido por um médico plantonista, o paciente foi medicado com Luftal (medicamento para prisão de ventre) e Buscopam (analgésico) antes de ser liberado.
Dois dias depois, Pontes continuava com fortes dores e grande expansão do abdômen. Foi novamente encaminhado ao HZN. Atendido por outro médico plantonista, teve diagnóstico de problema grave com necessidade de cirurgia urgente. Pontes permaneceu hospitalizado por cinco dias no HZN aguardando uma vaga pela Central de Leitos.
Na sexta-feira à tarde, Ademir Pontes foi transferido ao HU e no sábado encaminhado por volta das 10 horas ao centro cirúrgico, onde morreu durante a operação. De acordo com informações do HU à direção da Casa do Bom Samaritano, a cirurgia foi realizada tarde demais. Houve rompimento do instestino, contaminando outros órgãos com fezes. Pontes também teve duas paradas cardíacas durante a cirurgia.
‘‘Se no primeiro atendimento no Hospital da Zona Norte não houvesse tanto descaso e negligência, nada disso teria acontecido. Nossa revolta é grande porque ninguém merece ser tratado com tanto desrespeito. Queremos que esse hospital seja punido para que outros casos como não aconteçam’’, disse a assistente social Maria de Lucas.
O promotor Paulo Vieria Tavares afirmou que vai apurar se há um culpado pela morte de Pontes. ‘‘Queremos saber se houve negligência, imperícia ou falha. Vamos analisar se o Hospital da Zona Norte, a Central de Leitos e o HU fizeram realmente o que deveriam ter feito’’, disse.
O diretor clínico do HZN, Antonio Carlos Petrus, afirmou que o hospital não vai se pronunciar sobre o caso enquanto não fizer um levantamento completo da situação. A diretoria do HU informou, através da assessoria de imprensa, que somente hoje vai se manifestar sobre o assunto.

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