A Folha inicia hoje a publicação de uma série de matérias para discutir o problema da violência urbana e do crescente envolvimento de crianças e adolescentes com a criminalidade. A primeira reportagem traz uma entrevista com a promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Édina Maria Silva de Paula, que acompanha o problema de perto, no dia-a-dia do seu trabalho. Para ela, a situação é grave e exige um posicionamento mais efetivo do poder público e também da sociedade, para se que alcance a paz.


Amor e solidariedade. Esta é a receita da promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Édina Maria Silva de Paula, para reduzir os alarmantes índices de criminalidade registrados na cidade nos últimos anos. ''Tenho certeza que a solução não passa somente pelo aumento de investimento em segurança, por mais dinheiro. Também é necessário amor e solidariedade'', declara. A promotora fez uma visita à redação da Folha de Londrina. Em clima amistoso, conversou com parte da equipe de editores do jornal. Em pauta, o problema da violência em Londrina e a participação de menores na criminalidade.
Mesmo declarando ser uma otimista, Édina de Paula deixou claro o sentimento de impotência ante ao aumento desenfreado dos números da violência. Também cobrou a sociedade em geral, além de vários setores do poder público, para uma mobilização para combater o crime. ''A minha situação hoje é de uma angústia, uma impotência muito grande'', afirma. Para ela, um problema grave é a diminuição da idade dos envolvidos em crimes graves. A promotora conta que, quando começou a trabalhar na Vara da Infância e Juventude, oito anos atrás, os casos de jovens envolvidos em homicídios, por exemplo, eram raros. Atualmente, a violência tem se banalizado. ''Antes, eles saíam na porrada. Hoje, é na bala'', constata.
O aumento da criminalidade em Londrina é um fenônemo mais ou menos recente, acontecu a partir do ano 2000. Neste período, também foi constatada a maior participação de jovens. ''A violência não é um fenômeno novo, não é um fenômeno de Londrina. É uma coisa assustadora. Não é só a sociedade que está assustada. Nós estamos assustados'', diz Édina.
Para ela, as perspecitvas também são desanimadoras. ''Está chegando um momento em que a sociedade vai ter de decidir o que vai querer deixar para os filhos. Não adianta mais ficar andando de carro com o vidro fechado, colocando grade na frente da casa, alarme que não funciona, condomínio fechado'', constata.
A solução, para a promotora, depende da conscientização da sociedade. Atitude que, raramente, é assumida por grande parte da comunidade. ''As pessoas não se colocam como sociedade. A sociedade é o outro. Não é nada disso. A sociedade somos todos nós. Eu tenho minha obrigação como pessoa. Todo mundo tem de ter engajamento'', cobra. Edna aponta como outra possível causa do crescimento da criminalidade a existência de uma grande indústria da violência. ''Tem muita gente hoje ganhando dinheiro com a violência. Por outro lado, tem muita gente morrendo hoje por causa da violência'', avalia.
E o número de mortes é mesmo assustador. Londrina registrou até ontem 182 homicídios no ano, de acordo com estatística do próprio jornal. Segundo Édina de Paula, 43% deles foram praticados contra adolescentes. Por outro lado, os menores de 18 anos seriam autores de cerca de 15% dos assassinatos. ''São mais vítimas do que autores'', constata.
Apesar das estatísticas, Édina de Paula, que se diz uma idealista e otimista, acredita que é possível reverter a situação atual. ''Temos de aprender a respeitar e valorizar as coisas boas. Vamos elogiar as coisas boas que os nossos filhos fazem. A vida é uma via de mão dupla. A gente só ensina o que aprendeu'', resume.

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