‘‘Há um aumento grande de crianças que fazem das ruas um meio de sobrevivência. O problema se agrava porque, em contrapartida, houve uma diminuição dos programas e projetos que abordam estas crianças e adolescentes.’’ A afirmação é da promotora da Vara da Infância e Juventude, Solange Novaes da Silva Vicentin, que participou ontem à tarde, na Câmara de Vereadores, de uma audiência pública para discutir a questão dos menores em situação do risco. A promotora defende o envolvimento de toda a sociedade para solucionar o caso.
Vereadores e representantes de cerca de 25 entidades que lidam com menores em situação de risco participaram da audiência, organizada pelo vereador Célio Guergoletto (PMDB). Para comprovar que os projetos de atendimento a menores foram reduzidos, Solange Vicentin cita como exemplo as casas-abrigo, mantidas pela Prefeitura. Ela lembra que até há um ano funcionavam quatro casas que cuidavam de 60 adolescentes. ‘‘Hoje são só duas casas com, no máximo, 20 adolescentes’’, observa. Foram fechadas as casas localizadas na área central e no jardim Pacaembu. Atualmente, funcionam a da chácara Igapó e a que fica ao lado da Casa do Bom Samaritano.
A secretária municipal de Ação Social, Marisa Goettel do Nascimento, acredita que as casas foram fechadas ‘‘devido aos problemas administrativos e burocráticos e à falta de recursos’’. Segundo ela, existem estudos para abrir uma casa-abrigo emergencialmente (que atenderia 10 pessoas) e outras quatro futuramente. A Prefeitura conta com outros dois projetos para atender menores em situação de risco.
Marisa Goettel afirma que, segundo levantamento, existem 80 crianças e adolescentes que vivem nas ruas e não possuem nenhum vínculo familiar. ‘‘Parece que é um número maior. Há uma sensação de que eles estão espalhados por todos os lugares porque incomodam’’, ressalta.
Durante a audiência, três menores falaram sobre suas vidas nas ruas e de como são assistidos nas casas. F.J.R.P., 16 anos, contou que há anos é atendido em entidades e que, desde o ano passado, mora na chácara Igapó. ‘‘Se eu continuasse nas ruas, estaria atrás das grades agora. Agora eu estou até trabalhando na oficina da Prefeitura’’. Segundo ele, o trabalho desenvolvido pelas ‘‘tias ’’ da casa fez com que ele se recuperasse. ‘‘A gente sente que elas têm amor pela gente, que nos tratam sem preconceito’’.
Na opinião da promotora, o relato de F.J.R.P. é uma prova de que os projetos ajudam a solucionar o problema dos menores em situação de risco. ‘‘Eles aprendem a se relacionar, a valorizar o trabalho e também a voltar a confiar na sociedade’’, afirma. Para que estes projetos sejam levados adiante, ressalta, é necessário o envolvimento e a conscientização da comunidade. Ela lembrou que, no ano passado, levou à Prefeitura uma sugestão de transformar mocós em casas-abrigo, mas esbarrou no preconceito.
Segundo a promotora, foi encontrada uma casa, cujo proprietário concordou em ceder gratuitamente, mas os vizinhos foram contra. ‘‘Até hoje a casa serve de mocó’’, ressalta. Solange Vicentin informa que existem oito mocós em funcionamento na Cidade. ‘‘A sociedade nos cobra a desativação dos mocós, mas não admite que façamos uma casa-abrigo’’, observa.
O vereador Salvador Francisco (PSDB) sugeriu a elaboração de um projeto de lei que incentive empresários a investir em projetos de atendimento a menores em troca de isenção em impostos. Ele disse que irá conversar melhor sobre o assunto com outros vereadores.

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