Ney de SouzaSem amparoViviane Machado, mulher de um dos mortos, com os filhos Ricardo, 2 anos, e Natália, de dez diasO procurador-geral da Justiça no Paraná, Olímpio de Sá Sotto Maior Netto, deverá designar hoje um promotor especial para acompanhar as investigações sobre a chacina que teria sido praticada por policiais civis na favela Monsenhor Guilherme, na área central de Foz do Iguaçu. A medida reflete o interesse do Ministério Público em apurar o caso.
Quatro rapazes - três deles menores de idade - foram mortos pela Polícia Civil na manhã de sexta-feira, numa suposta ação para reprimir o tráfico de drogas. Segundo o delegado-chefe da 6ª Subdivisão Policial, Luiz Carlos de Oliveira, a polícia foi chamada à favela por meio de um telefonema anônimo para conter um tiroteio que estaria acontecendo entre quadrilhas de traficantes de drogas.
De acordo com Oliveira, os quatro rapazes eram integrantes de uma das quadrilhas e teriam reagido à prisão a tiros. Segundo essa versão, eles foram mortos quando tentavam fugir, atirando contra os policiais. Nenhum dos nove policiais que participaram da operação ficou ferido.
Parentes dos mortos e moradores da favela garantem que os rapazes dormiam em um barraco quando a polícia chegou. Eles não teriam reagido à prisão e teriam sido algemados na casa, levados até um muro próximo e executados com tiros na cabeça.
Ontem à tarde, cerca de 50 moradores da favela fizeram um protesto em frente ao prédio do Ministério Público, no centro de Foz do Iguaçu. Com faixas, eles pediam ‘‘justiça’’ e a condenação de policiais. Segundo parentes, os quatro rapazes trabalhavam e três deles estudavam. Eli de Oliveira, de 19 anos (o mais velho dos mortos) era casado e tinha dois filhos: Ricardo, de dois anos e três meses, e o bebê Natália, hoje com dez dias.
Viviane Machado, de 19 anos, mulher de Eli, e Sônia Medina, mãe de Giovani Medina, de 15 anos, anunciaram que vão entrar com processo exigindo indenização do Estado. Os outros dois mortos são Adenilson Dias de Matos, de 17 anos, e Arnaldo Oziel Mongelos, de 16.
Doze pessoas, entre testemunhas e parentes das vítimas, foram ouvidas ontem à tarde no Ministério Público. Os depoimentos foram acompanhados pelo reverendo Romeu Olmar Klich, presidente do Centro de Direitos Humanos de Foz do Iguaçu.
Klich, que viu os corpos dos rapazes, garante que eles foram executados com tiros na cabeça. ‘‘É insustentável a versão da polícia. Todos foram mortos com tiros na cabeça e seus braços tinham marcas de algemas. O que aconteceu foi uma chacina, uma prática típica de grupos de extermínio’’, acusa Klich.
O laudo técnico do Instituto Médico-Legal (IML) só deverá ser concluído em cerca de dez dias. Klich anunciou que as entidades de defesa de direitos humanos vão enviar um dossiê sobre o caso à Assembléia Legislativa, ao governador Jaime Lerner (PFL) e às secretarias estaduais de Segurança e Justiça. O documento será encaminhado também ao Ministério da Justiça, à Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, à Anistia Internacional e a outros organismos internacionais de direitos humanos.

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