Promotor aponta disseminação do crack
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terça-feira, 11 de novembro de 1997
Paulo Ubiratan 
Londrina
Arquivo FolhaEstado de alertaO promotor da 3ª Vara Criminal, Sérgio Siqueira: Não estamos obtendo êxito na guerra contra o crackO promotor da 3ª Vara Criminal de Londrina, Sergio Corrêa Siqueira, afirma que a disseminação do crack em Londrina está apavorante. A situação do tráfico de crack é das piores nos últimos dois anos, e não estamos conseguindo obter nenhum êxito nesta guerra. Caminhamos no escuro, pois não possuímos nenhum referencial para pegar os grandes distribuidores da droga, apesar de já termos mais de trinta endereços dos pontos de fornecimento, afirmou Siqueira.
Ele diz que o crack é o lixo do lixo: a droga é fabricada com a borra da cocaína, misturada com alcalóides variados, ácidos e outros produtos corrosivos. O preço da pedra em Londrina varia de R$ 5,00 a R$ 10,00. Já tivemos casos de um dependente necessitar de 24 doses de crack por dia, cujo gasto mínimo alcançava R$ 120,00. Ele começou furtando da família e depois acabou no roubo de carros para sustentar o vício.
Há menos de uma semana, chegaram à Promotoria denúncias de que uma mulher loira é uma das pessoas que lideram a distribuição de drogas em Londrina. Nos depoimentos, os denunciantes afirmam que na entrega do crack ela usa uma motocicleta ou um Escort vermelho. O promotor disse que, a princípio, não acreditou na existência da loira, mas hoje não tem dúvidas. As pessoas que denunciam esta mulher não se conhecem e a descrevem com os mesmos traços.
Ele também afirmou que atualmente não existe mais a figura do grande traficante, pois o comércio da droga está pulverizado. Estamos observando que o mercado da droga obedece a mesma filosofia do mercado formal de outros produtos. O traficante está adotando os critérios da globalização da economia, desde a venda por consignação até a terceirização da distribuição. Siqueira acredita que isso dificulte a prisão dos responsáveis.
Na semana passada o juiz da 3ª Vara Criminal, José Marcos de Moura, despachou três mandados de busca e apreensão, para que o serviço reservado da Polícia Militar desmantelasse pontos de venda de tóxico. Foi presa apenas Maria Aparecida Alves de Oliveira, 31 anos, moradora do jardim Perobal (zona leste). Com ela foram encontrados diversos produtos de furtos e pequena quantidade de crack e maconha.
Siqueira diz que o problema do tráfico é dramático por atingir crianças de 10 a 12 anos, com várias passagens pela polícia. O promotor acredita que o crack mudou o perfil do criminoso jovem. Ele lembra que essa droga deixa o usuário mais violento. A maioria dos viciados é da classe média, com renda familiar acima de R$ 1,5 mil - uma tipologia incomum entre criminosos. Tome-se o exemplo os ladrões que não são viciados em drogas. Eles possuem histórico criminal parecido: começam com pequenos furtos, passam para os pequenos roubos, deslancham para os grandes assaltos e chegam matar. Ao contrário - analisa o promotor - o viciado surpreende por ser imprevisível. Sob o efeito do crack, pode iniciar sua vida criminosa praticando um homicídio.
Siqueira propõe uma ação conjunta com a polícia e toda a comunidade. O cidadão comum poderia começar a ajudar, denunciando traficantes e pontos de vendas de drogas. Nós ouvimos sigilosamente o denunciante, dando-lhe garantia de que jamais será descoberto. Todo o nosso conhecimento sobre o tráfico de droga em Londrina foi passado por cidadãos honrados que querem realmente acabar com os traficantes na Cidade, comenta o promotor. Denunciar esta gente é um perfeito ato de cidadania.


