Prometidos um ao outro, como antigamente
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de outubro de 1998
ReproduçãoIsrael Reinstein 
Quando viu pela primeira vez Hassan Ahmad Bark, Amide Cheade Bark tinha, entre as diversas dúvidas em sua cabeça, uma pequena e boba: ele cheirava mal? Na época, ela tinha 19 anos e ele 22 anos e tiveram que casar por determinação de seu tio, pai de Hassan. Era 1941, meus pais tinham vindo ao Brasil e eu fiquei morando com meus tios no Líbano, lembra Amide, olhando carinhosamente para o marido, com quem vive há 57 anos.
Amide, que está no Brasil há 47 anos, conta que ficou um pouco assustada ao saber que iria casar com alguém que vivia em Biblos, bem distante da sua cidade Balkear, no Líbano. Meu tio disse que iria casar com um primo, que nunca tinha conhecido e que podia ser feio, gordo e velho, lembra, afirmando que sequer tinha visto a fotografia do noivo. Receosa, mas obedecendo as tradições, ela impôs apenas uma condição: queria ver os pais que estavam no Brasil. Acertado este ponto, o casamento foi marcado um mês depois. Conheci Hassan, que conversava com um primo, alguns dias antes do casamento, conta Amide. Ela foi ousada e veio conversar comigo, diz Hassan, desobedecendo um costume da época. Gostei dele, achei bonito e inteligente, lembra Amide.
O casamento foi simples. Ele prometeu um dote por Amide de três mil liras (cerca de três mil dólares), quantia que seria desembolsada a ela caso Hassan a abandonasse. Mas nunca tivemos brigas sérias, garante.
Após a cerimônia, conta Hassan, viria a parte mais delicada do casamento. Tínhamos trocado umas palavras, mas não foram suficientes para nos conhecermos, comenta Amide. Na noite de núpcias, duas pessoas diferentes se viram sozinhas pela primeira vez. Encabulada, Amide não descreve o encontro, mas demonstra que houve insegurança entre os dois, que só deram as mãos depois de casados.
O casal viveria por mais de dez anos no sul do Líbano, vindo ao Brasil apenas em 1951. Amide diz que o casamento arranjado foi bom para eles, mas ressalta que amigas suas tiveram que casar com seus candidatos para não serem mortas por seus pais. Apesar do sucesso matrimonial, o casal não colocou nenhum de seus sete filhos nesta situação. Quando vivia no Líbano, não podia estudar, por isso sempre me preocupei que eles se dessem bem na vida, estudando muito, diz.
Amide questiona o atual modelo de casamento, em que a união dos casais é fraca. Não entendo essa história de casais separados, em que os filhos vivem ora com o pai ora com a mãe, afirma.Na virada do século, ainda existem pessoas que optam por antigas tradi ções para arranjar seus pares. Árabes, índios, japoneses, judeus e també m ciganos preservam costumes que eram comuns na época de nossos av ós e bisavós. Com a ajuda da comunidade ou prometidos por seus pais, eles tê m o mesmo sonho dos que buscam o casamento por amor - um final feliz.
Ela foi ousada e
veio conversar
comigo, diz Hassan,
desobedecendo o costume


