Projeto turístico na ferrovia ociosa
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quinta-feira, 01 de março de 2007
Widson Schwartz<br>Especial para a Folha 
O ramal Ourinhos-Jaguariaíva, atualmente sem tráfego, pode ser usado para se criar uma nova fonte de renda no Norte Pioneiro. Quem propõe é João Mendes de Oliveira, filho de ferroviários que cresceu em estações e quer expandir o turismo, começando com o trem de passageiros nos 77 quilômetros entre Marques dos Reis e Joaquim Távora.
Sem ainda ter completado a transição econômica após o ciclo cafeeiro, o Norte Pioneiro deve pensar no turismo como alternativa imediata, segundo Mendes, levando em conta três fatores: ferrovia, água (rios e represa) e o patrimônio histórico-cultural. Soma-se a localização, na divisa com o Estado de São Paulo, existindo quatro ligações rodoviárias e o entroncamento rodo-ferroviário em Ourinhos.
Situa-se a 90 quilômetros da Rodovia Castelo Branco, a 160 de Londrina, a 380 de Curitiba, a 100 da represa de Jurumirim e a 120 da região de Avaré, despontando a possibilidade de uma integração de rotas de curta distância, as preferidas por 80% dos turistas brasileiros. E apenas no eixo de 100 quilômetros são dois milhões de habitantes, argumenta Mendes, presidente da Associação de Preservação Ferroviária de Jacarezinho (APFJ).
Passando em dois túneis e chegando a altitudes que permitem avistar panoramas incomuns de vales e montanhas, a ferrovia é o primeiro atrativo no projeto de Mendes. E o ''eixo''. Saindo dela, os turistas seriam levados a fazendas históricas na antiga rota do café, a pousadas, cachoeiras e lagos artificiais, e a presenciar festas regionais. Já existem as fazendas adequadas ao turismo rural e a ''dos alemães'', em Carlópolis, terá a sede transformada no Museu do Café, pela Prefeitura.
''Vai ser um grande negócio, auto-sustentável, vamos ter contribuição do governo'', afirma Mendes. ''Estive com o ministro Paulo Bernardo (do Planejamento), existe a possibilidade de recebermos auxílio governamental, desde que haja inclusão social.'' Calcula que a consolidação do pólo turístico se dará em uma década, porém atraindo 100 mil turistas já no quinto ano e criando pelo menos mil empregos, caracterizando a desejada inclusão social.
Simultaneamente à privatização do ramal, em dezembro de 1996, Mendes fundou a APFJ, organização social civil de serviço público sem fins lucrativos. A seguir, conseguiu transformar em patrimônio histórico quatro estações no ramal e, recentemente, bacharelou-se em Turismo. ''Sou consultor em trem turístico'', credencia-se. Recorda que a Rede Ferroviária Federal S.A. descuidou do patrimônio logo após cessarem os trens de passageiros, em 1976. Com a privatização, ''o último chefe de estação jogou a chave, se você quiser cuidar, aqui está''. Então, a APFJ entrou em cena. Hoje, o Ministério Público Federal pleiteia que a América Latina Logística (ALL) assuma a restauração do patrimônio.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) autoriza o trem de passageiros ''sem caráter de exclusividade e com finalidade turística, comemorativa, cultural e eventual'', mediante contrato envolvendo a parte interessada e a concessionária, estabelecendo-se a remuneração do uso da infra-estrutura.
Com o projeto ''Maria Fumaça'', a APFJ solicitou sete vagões e duas locomotivas (uma a vapor e outra a diesel) à Secretaria Nacional de Transporte Ferroviário e já tem um plano de manutenção. Ao contrário do que possa sugerir o nome, os trens não serão arcaicos; estão previstas classes e tarifas diferenciadas, mas os vagões serão de aço inoxidável e na composição de 12 não faltará bar, restaurante, butique e ar-condicionado. Há que se oferecer ''o glamour'', diz Mendes. Aos que lhe perguntam quando o primeiro trem vai trafegar, ele responde que, talvez, ainda em 2007. Entretanto, nenhuma estação foi restaurada.


