A história dos distritos rurais de Londrina começa a ser registrada de uma forma muito especial. Crianças da terceira série do Ensino Fundamental e idosos cadastrados nos programas sociais do município interagem com o intuito de reconstruir aspectos históricos, além de contribuir para a preservação da memória e identidade cultural local.
Anteontem, no salão paroquial do Distrito de São Luiz (Zona Sul), foi lançada a segunda etapa do projeto ''Tempo de lembrar, tempo de aprender: memórias da cidade''. Segundo a responsável pelo projeto na secretaria de Educação, Eva Maria de Andrade Okawati, quando criado, em 2007, o projeto focou na região urbana de Londrina. Para ajudar na construção da história da cidade foram realizadas entrevistas e coleta de depoimentos de pioneiros não oficiais.
''Temos poucos registros dos aspectos históricos dos distritos rurais. Todos são testemunhas de seu tempo, e o objetivo do projeto é valorizar a memória transmitida oralmente; as histórias protagonizadas por pessoas que não estão nos livros'', justifica Eva.
Em meio a objetos de memória dos pioneiros, tais como fotografias, máquinas de costura e de moer café, pilão, ferro à brasa, fogão à lenha, lampião, discos de vinil e revistas da década de 60, crianças da Escola Municipal Francisco Aquino de Toledo homenagearam os idosos com declamação de poesia e música.
Já os idosos trajaram roupas gaúchas para fazer o que mais gostam - dançar xote. Depois do lanche, os idosos colocaram-se à disposição das crianças para transmitir conhecimento e vivências. Talita Ribeiro, nove anos, apreciava os guardanapos de pano com barrado de broia confeccionados por Assunta Maria Cavalieri, 91, residindo há 40 no distrito de São Luiz. ''Fiquei curiosa porque a minha avó sabe fazer e está me ensinando'', conta a estudante. Já dona Assunta recorda o tempo em que tudo era mais difícil. ''Não havia um palmo de asfalto. Era só mato. Quando meu filho estava doente, o colocava no colo e montava no lombo de uma égua para ir ao hospital'', relembra.
Neta dos pioneiros João Rampazzo e Leondina Helena Spósito Rampazzo, Giovanna, nove anos, trouxe para a exposição um miniferro à brasa da década de 60, pertencente à tia, Iza Minghette, 78 anos, que também prestigiava o lançamento do projeto. ''Moro há 70 anos no distrito. Sou de uma época em que só havia ''picada'' e caminhão de tora circulando por todos os lados. Acho importante resgatar o passado, ele anda esquecido'', constata.
O estudante Rafael Fernandes de Almeida Luzia, nove anos, surpreende ao informar que onde mora - a casa da avó - ainda há colchão de palha, lamparina e chuveiro de balde. ''É gostoso. Meus amigos também acham legal quando conto'', comenta.
Respeito
A coordenadora do grupo de idosos, Terezinha Delmonaco de Castro, destaca a importância do projeto para o resgate da cultura e memória do Distrito de São Luiz. ''Além disso, os idosos podem transmitir suas experiências, promovendo o respeito entre as diferentes gerações'', argumenta.
De acordo com Eva Okawati, os profissionais da Secretaria de Educação já registraram os depoimentos dos idosos. Em uma segunda etapa, explica, as crianças darão continuidade ao trabalho entrevistando-os, por meio da articulação de momentos de integração intergeracional. ''O material será distribuído nas escolas municipais, como complemento do conteúdo ensinado nas aulas de História para os seis mil alunos da 3 série do fundamental, ano este em que as crianças aprendem sobre a história de Londrina'', finaliza.

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