Paulo WolfgangLonga esperaO pedreiro Nelson Oliveira com a mulher e seis filhos: 10 anos na fila da CohabAs 10 casas de fibrocimento que estão sendo construídas no conjunto Ilda Mandarino, zona norte de Londrina, e que fazem parte de um projeto-piloto da Companhia de Habitação (Cohab), foram ocupadas anteontem à noite por famílias que moravam em imóveis alugados. Os invasores arrombaram as portas das casas, que deveriam estar concluídas até sexta-feira.
As casas estão sendo erguidas pela construtora Grande Piso Revestimentos e foram oferecidas gratuitamente à Cohab como alternativa de uma nova tecnologia para reduzir o déficit habitacional em Londrina.
O proprietário da Grande Piso, Roberto Sas, e a direção da Cohab informaram que entrariam ainda ontem com ações de reintegração de posse. O presidente da Cohab, Wilson Mandelli, afirmou que os invasores não podem permanecer nas casas, já que existe uma lista de 30 mil famílias aguardando moradia popular.
A invasão das casas, segundo revelaram alguns ocupantes, vinha sendo planejada desde o início da construção, há três meses. Os operários contam que várias pessoas ‘‘supervisionavam’’ o andamento das obras. ‘‘Muitos vinham aqui para saber se era da Prefeitura, quando ficaria pronta, o preço...’’, contou o pedreiro Joel Lucas.
Paulo WolfgangO vigia Oliveira: ‘Não dá para pagar aluguel’
Entre os que costumavam ‘‘vistoriar’’ a construção, estava o pedreiro Nelson Alves de Oliveira, morador de uma casa alugada no jardim do Sol (zona oeste). Ele conta que, no começo, ia até a construção na tentativa de conseguir um emprego. Depois, acabou conhecendo outras pessoas que iam ao local com a intenção de ocupar as casas. ‘‘Ontem (anteontem) eles disseram que iam entrar nas casas e eu fui buscar minha família.’’
Pai de seis crianças, desempregado, o pedreiro Oliveira afirma que pretende pagar pela casa. ‘‘Fiz a inscrição na Cohab há 10 anos e até hoje estou sem casa.’’ Ele diz que já foi convidado a participar de ocupações de terra na região mas não aceitou o convite por causa dos filhos. ‘‘A gente tem medo de se envolver com essas coisas, mas não tem outro jeito.’’
Também desempregada, Regina Batista Rosa, dois filhos, moradora do bairro, conta que decidiu entrar na casa depois de ver a movimentação. ‘‘Vi o pessoal chegando com os móveis e vim para cá. Esta era a única casa desocupada.’’
Enquanto outras famílias se instalaram em casas praticamente acabadas, com pintura e azulejo, Regina entrou no imóvel sem janelas e reboco. ‘‘Não tem importância; isso aqui para mim é uma mansão.’’ Ela diz que pretende ficar no local e pagar a prestação. ‘‘Se eu não entrasse, outro entraria aqui.’’
Paulo WolfgangCleuza Ferreira: ‘Se eu soubesse tinha invadido’
Duas casas foram ocupadas por familiares do vigia José Pedro de Oliveira, 67 anos. Ele, a mulher, duas filhas e dois netos decidiram sair do apartamento no Residencial das Américas, alugado por R$ 140,00, e se instalar nas casas de fibrocimento. ‘‘O que a gente ganha não dá para pagar o aluguel.’’
A ocupação das casas em construção chamou a atenção da vizinhança. ‘‘Se eu soubesse, tinha invadido. Também quero uma casa dessas, grande, pintada, azulejada, uma beleza. Pena que cheguei tarde’’, comentou a dona-de-casa Cleuza Ferreira, que paga R$ 100,00 de aluguel.
Os 15 operários, alguns contratados como reforço para apressar a conclusão das casas, passaram o dia no local, sem poder executar os trabalhos. Um deles observou: ‘‘Esse pessoal deveria esperar até sexta-feira, quando as casas estariam todas prontas’’.

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