Projeto oferece ajuda às mães durante o Enem
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terça-feira, 01 de novembro de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 
Certa de que a formação de uma rede de solidariedade é uma das formas de evitar que mulheres com filhos pequenos desistam de cursar uma faculdade, a jornalista Fernanda Vicente, de Santos (SP), criou o projeto Mães no Enem, que tem como objetivo oferecer cuidados gratuitos às crianças enquanto suas mães realizam as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em menos de 24 horas, o projeto ganhou repercussão nacional e até agora 250 voluntárias de 20 estados mais o Distrito Federal fizeram o cadastro. No Paraná, são seis voluntárias cadastradas, a maioria delas em Curitiba, mas também há interessadas em Colombo (Região Metropolitana de Curitiba), Ponta Grossa (Campos Gerais) e Maringá (Noroeste).
O Enem acontece no próximo fim de semana e as provas são divididas em dois dias, sendo cinco horas no sábado (5) e cinco horas no domingo (6). No Brasil, são 9,2 milhões de estudantes inscritos no exame. No Paraná, são 419 mil candidatos. Muitos deles são mães que não têm com quem deixar seus filhos para que tenham tranquilidade na hora de enfrentar as dez horas de provas. "O Mães no Enem surgiu com uma corrente no Facebook no início de agosto e em menos de 24 horas surgiram 120 mulheres querendo ajudar", contou Fernanda. O serviço é inteiramente gratuito.
O projeto, acredita a idealizadora, pode ser um meio de evitar a evasão escolar entre as mulheres, que têm um alto índice no Brasil. Segundo pesquisa feita em parceria com o Ministério da Educação, a Organização dos Estados Ibero Americanos (OEI) e a Faculdade Latino-Americana de Ciências (Flacso) e divulgada no início deste ano, questões familiares, trabalho e gravidez são os três principais fatores que levam as jovens brasileiras a abandonar os estudos. Entre meninas de 15 e 29 anos de idade, 18,1% disseram que deixaram a escola em razão da gravidez contra 1,3% dos meninos. Outras 23,1% delas afirmaram ter desistido dos estudos por questões familiares enquanto entre os garotos esse índice ficou em 16,4%.
"É preciso reduzir o índice de evasão escolar entre as mulheres e o Mães no Enem vem para contribuir. No Brasil, essa é a primeira iniciativa, mas em outros países há projetos semelhantes que criam bancos de voluntários para auxiliar as mães", destacou Fernanda. "Não imaginava que iria tomar essa proporção toda. Começamos em 12 de agosto e, em menos de três meses, já temos 250 voluntárias em 20 estados, além do Distrito Federal."
Uma das voluntárias é a estudante Cátia SantAnna, de Curitiba, que soube do projeto pelas redes sociais. "Não conheço a Fernanda pessoalmente, mas somos amigas no Facebook. Ela fez um post falando sobre o projeto e resolvi me cadastrar", disse ela, que já enfrentou a mesma dificuldade. Ela conta que na primeira vez que tentou fazer o Enem, estava grávida de nove meses e como sentia mal estar, acabou não realizando a prova. Da segunda vez, a filha estava com 3 anos e Cátia teve dificuldade para encontrar alguém para ficar com a criança. "Acabei deixando com a avó paterna, mas ela é uma pessoa que tem vários problemas de saúde e foi difícil. Fiquei preocupada durante a prova."
Até agora nenhuma mãe entrou em contato com Cátia à procura de ajuda para o dia da prova, mas ela torce para que isso aconteça até o final de semana. "Apesar da ampla divulgação do projeto, acredito que o público-alvo ainda esteja sem informação clara sobre ele", avalia a voluntária.
"É fácil não pensar nos outros quando você tem alguém que cuide do seu filho", disse outra voluntária de Curitiba, a engenheira civil Graziela Mutti. "Achei a ideia fantástica porque dá uma oportunidade a uma mãe que não tem com quem deixar seu filho. É uma ideia simples e bem necessária."
CADASTRO
Quem quiser colaborar com o projeto pode enviar um e-mail para o [email protected] ou entrar na página Mães no Enem, no Facebook. O prazo para o cadastro de voluntários termina à meia-noite desta terça-feira (1º), mas para as mães que necessitam de ajuda, o prazo vai até sexta-feira (4). Os voluntários devem fornecer o número do RG, CPF e comprovante de residência. A mãe também preenche uma ficha de interesse. Os dados são mantidos em sigilo até que os dados sejam cruzados e um voluntário se mostre apto a atender as necessidades da mãe. Após a aproximação dos dois, é assinado um termo de responsabilidade. Tudo é feito com a orientação de uma advogada, também voluntária no projeto, para resguardar ambas as partes.
"A procura ainda não é grande porque é uma iniciativa nova e ainda tem o receio. As pessoas têm muito medo. A gente vê muita coisa ruim na imprensa", analisa Fernanda. "Mas conforme for passando o tempo e as histórias de sucesso forem sendo vistas, a adesão vai ser maior", aposta.


