Quem gosta de rock? E de funk? Foi com perguntas sobre seus hábitos e comportamentos que estudantes do Colégio Estadual Vicente Rijo, de Londrina, puderam refletir ontem sobre como ter uma convivência com os colegas longe da violência e casos de bullying na escola. A atividade fez parte de uma palestra promovida por membros do projeto Restaurando Londrina, do Centro Universitário Filadélfia (UniFil), e está dentro da semana de "Integração Comunidade-Escola" do colégio.
Na prática, o Restaurando Londrina busca a conciliação e pacificação de conflitos por meio da Justiça Restaurativa, modelo que visa a reparação de danos às partes envolvidas e a reconstrução de relações rompidas, quando possível. Segundo o coordenador do projeto, o professor de Direito João Ricardo Anastácio da Silva, embora os episódios de violência no âmbito escolar tenham aumentado, muitos estudantes ainda não sabem quando a situação se configura como bullying. "Muitos ainda pensam que aquilo é só uma ‘zoeira’, como dizem. Mas esta falta de informação sobre o assunto é prejudicial. Como as pessoas vão construir um círculo de paz convivendo assim?", questionou.
Entre uma história e outra sobre bullying, Silva orientou os alunos para que sejam tolerantes com as diferenças entre eles. "É possível conviver com as diferenças. Até a Organização das Nações Unidas (ONU) já fez uma declaração sobre isso", comentou. O advogado assinalou também a importância da conscientização do agressor sobre o que ele está praticando e da vítima, para que não haja vinganças mais tarde. Só assim, aponta ele, um novo ciclo de violência poderá ser evitado. "É preciso haver perdão, isso é algo possível de acontecer."
O bullying não envolve apenas violência física, mas xingamentos, apelidos e até exclusão do aluno de determinados grupos. A aluna do 3º ano do ensino médio, Anna Carolina Vanelli, de 18 anos, disse que, muitas vezes, considerou as práticas como brincadeira, mesmo já tendo passado por alguma forma de bullying ao longo da vida escolar. Para ela, a direção das instituições de ensino também precisam estar preparadas para lidar com estas situações. "A postura tem que ser de respeito entre todos. Esse é um tema que precisa ser debatido, mais aplicado no dia a dia", analisou.
O estudante Maicon Douglas Ridlinger, de 14, também relatou que a "zoeira" é comum quando algum colega tem preferências distintas do restante da turma. "Mas agora quero parar com isso", prometeu.
De acordo com a diretora do Colégio Vicente Rijo, Cleise Mari Horn, as atividades da Integração Comunidade-Escola seguem até sexta-feira. Ontem, além da palestra sobre bullying, houve debates sobre ética nas redes sociais e respeito à diversidade. Na sexta, o enceramento será com uma palestra sobre alimentação saudável. "Os temas são escolhidos pelos professores e depois os alunos se inscrevem nas palestras que escolheram. A participação é boa", definiu Cleise.

COMPLEMENTO

As ações do Restaurando Londrina, da UniFil, envolvem acadêmicos de Direito, Psicologia e Teologia. O projeto trabalha, ao todo, com dez núcleos, entre eles miséria, drogas e violência na escola. Em todos os casos, há uma questão semelhante a ser discutida entre grupos – a desestruturação familiar. "Percebemos que a violência começa em casa, mas com a participação da escola pode haver melhoria. Queremos que os alunos repensem e levem isso para casa", comentou a estudante de Psicologia Nathália Nakahodo, de 20 anos.
Ela, Bruna Camargo, de 22, e Isabelly dos Santos, de 20, participaram da apresentação sobre bullying no Vicente Rijo e desenvolvem o Restaurando Londrina na Escola Estadual Lauro Gomes da Veiga Pessoa, na zona norte de Londrina. Entre as ações, estão palestras com alunos e acompanhamento de reuniões pedagógicas. O objetivo, conforme Bruna, é auxiliar a escola para que a instituição tenha papel de complemento na educação que os estudantes recebem de suas famílias. "A escola não deve ser apenas ambiente de educação, mas ser educadora também. Ela pode influenciar o aluno", reforçou.

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