Projeto leva alfabetização a prostitutas
DE CADERNO E LÁPIS Projeto leva alfabetização a prostitutas Duas associações de Londrina se unem para escolarizar mulheres de programas. Portadoras do vírus da Aids também são beneficiadas Arquivo Folha/Cesar AugustoAVANÇO Alia e Apeart rompem as barreiras da discriminação e levam as prostitutas para as salas de aula. Intenção dos promotores é de contemplar com a oportunidade de alfabetização também o grupo dos travestis Érika Pelegrino de Londrina A partir de hoje, 30 mulheres de Londrina ligadas à prostituição ou portadoras do vírus da Aids, que fazem parte de dois projetos Previna e Reagir , vão assumir um novo desafio. Elas farão parte de um programa piloto que tem como objetivo a alfabetização e o ensino supletivo de 1ª a 4ª séries. O projeto Educação das Profissionais do Sexo e das Mulheres Portadoras do Vírus HIV nasceu de uma parceria entre a Associação Projeto Educação do Assalariado Rural Temporário (Apeart) e a Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (Alia). A idéia surgiu, segundo o coordenador pedagógico da Apeart Wagner Roberto do Amaral, da própria necessidade destas mulheres. No Projeto Previna da Alia são distribuídos preservativos e informativos sobre prevenção da Aids e outras doenças, conta. Como a maioria das mulheres não sabe ler, muitas das informações ficavam perdidas. Segundo Amaral, estas mulheres buscam uma melhoria na qualidade de vida e para isso dependem da escolarização, mas acabam esbarrando em algumas dificuldades. Com o estigma da prostituição, ou de ser portadora do vírus da Aids, ou ainda de ambos ser prostituta e estar contaminada , estas mulheres não conseguem mais se adaptar em um ambiente escolar. Unidas pela discriminação e baixa auto-estima elas criam uma relação afetiva muito grande entre si e buscam espaços onde possam superar suas dificuldades e reafirmar a identidade do grupo. Conhecendo esta realidade, a Apeart já tinha a intenção de desenvolver um programa de alfabetização e escolarização com estes grupos. Por isso se uniu à Alia para colocar o projeto em prática. Foram seis meses para conseguir vencer alguns obstáculos antes de dar início ao projeto. Não conseguiamos, por exemplo, verba para a compra de passes para que estas mulheres pudessem participar das aulas, conta Amaral. Eram necessários R$ 10 mil para a compra de passes para o ano todo. Nós tentamos com a Secretaria Especial da Mulher, mas não conseguimos, afirma. O dinheiro acabou saindo através da Secretaria do Estado da Saúde. Além de criar um espaço específico para o grupo, o projeto pedagógico será desenvolvido em conjunto com as alunas que serão assessoradas por uma comissão pedagógica, com base na metodologia de Paulo Freire. A partir de hoje elas estarão reunidas com a comissão para discutir o que pretendem mudar em suas vidas com a escolarização. Se querem sair da prostituição, se querem apenas ler e escrever, se buscam uma melhoria de vida, se pretendem continuar na vida que estão mas organizadas politicamente... Emfim, elas decidirão qual o destino da educação que buscam e a partir daí estaremos desenvolvendo o projeto pedagógico, de acordo com os textos que a comissão pedagógica considera importante e que elas consideram importante, explica Amaral. Ana Paula nome fictício , 47 anos, vê no curso uma possibilidade de conseguir um emprego. Ela começou a se prostituir aos 12 anos. Há quatro anos cansou desta vida e passou a trabalhar como voluntária da Alia para auxiliar as antigas companheiras. Ana Paula afirma que a discriminação e preconceito que sofre por não saber ler nem escrever é maior do que quando era prostituta. Não consigo trabalho nem como diarista. Me chamam de burra, conta. As disciplinas básicas português, matemática, história, geografia e outras serão trabalhadas a partir de temas transversais como direito e legislação referente à prostituição, participação e organização política, saúde, e outros. O material produzido pela comissão pedagógica e pelas alunas durante todo o processo de alfabetização e escolarização será publicado, segundo Amaral, para ser utilizado por outros grupos. Pretendemos estender este projeto para outros grupos, como travestis, explica. Um ponto importante do curso é abrir espaço para reflexão e criticidade, segundo Wagner do Amaral. Ao final de 10 meses estas mulheres receberão o certificado de 1ª a 4ª séries.





