Projeto incentiva parto adequado em hospitais e operadoras de saúde
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terça-feira, 03 de outubro de 2017
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 

Uma iniciativa da (ANS) Agência Nacional de Saúde Suplementar pretende reduzir o índice de cesáreas desnecessárias no Brasil. O projeto Parto Adequado, que está em fase de expansão para 150 hospitais e 60 operadoras de saúde, conseguiu aumentar em mais de 40% a taxa de partos naturais em 35 instituições participantes da primeira fase da iniciativa. Como consequência, mais de 10 mil cesárias sem indicação clínica e 400 admissões de bebês em UTI neonatal foram evitadas. A iniciativa é mais uma tentativa de reverter os indicadores que transformam o Brasil no campeão mundial de cesáreas. De acordo com dados do Ministério da Saúde, os partos por cirurgia correspondem a 55,5% do total de nascimentos realizados no país.
"O Parto Adequado visa melhorar a assistência obstétrica no Brasil", explica o obstetra Vinícius Fernandes de Souza, do corpo clínico do Hospital Evangélico de Londrina e membro do projeto. Segundo ele, o objetivo é estabelecer condutas para incentivar o parto adequado e coibir interrupções de gestação abaixo de 39 semanas. "Já existe uma lei que proíbe isso, mas não funciona", lamenta.
Ele destaca que o parto adequado nem sempre é o parto vaginal, mas reforça que há um histórico de mulheres que desejam ter o parto natural e não conseguem por falta de assistência humanizada. "Dando a elas o direito de decidir, conseguimos reduzir o número de cesáreas desnecessárias", acredita.
O médico reforça que cesarianas realizadas abaixo de 39 semanas, sem que a mãe tenha entrado em trabalho de parto, constituem uma interrupção cirúrgica de uma gestação que ainda não terminou. "Quando isso ocorre, benefícios como as mudanças hormonais que facilitam a amamentação e o rápido estabelecimento do vínculo com o bebê deixam de existir", adverte.
Por isso, mesmo que a paciente opte por cesárea, as diretrizes do projeto Parto Adequado orientam a esperar a hora do nascimento no caso de gestações de baixo risco, o que vai garantir que o bebê nasça em boas condições pulmonares e evitar prematuridade.
"Só no Brasil que não se espera a hora certa para o nascimento, muitas vezes por conveniência da família e dos serviços de saúde", opina ele, lembrando que a obstetrícia no País está na contramão do mundo, o que impõe a necessidade de uma mudança na cultura para melhorar a assistência ao parto.
Para sensibilizar os profissionais de saúde incluindo médicos sobre a necessidade de reduzir cesáreas e aumentar os índices de parto normal, a ANS tem promovido sessões de aprendizagem nos hospitais para melhorar o atendimento. Uma das ações ocorreu em setembro no Hospital Evangélico, em Londrina. "A ideia é implementar medidas baseadas em evidências cientificas", diz. Com redução de nascimentos precoces, reduz-se também a internação de bebês acima de 2,5 quilos em UTIs, o que leva também à redução de custos.
A autonomia da mãe é outro valor a ser defendido. Conforme Souza, as mulheres que optam por cesariana não têm dificuldade em ter seu desejo atendido, mas o mesmo não ocorre com as que desejam parto normal. "Muitas sequer encontram um profissional que faça isso. Muitos médicos não fazem porque não têm tempo, ou não concordam, e aí a mulher é absorvida no sistema e acaba na cesárea", lamenta.
No Hospital Evangélico, a adesão ao projeto já garantiu a implantação de medidas como oferta de sala de parto humanizado, analgesia não farmacológica, como banheira para relaxar e reduzir a dor. A instituição também cumpre a lei e garante a presença de acompanhante, além de deixar música, bolas e massageadores à disposição. "Fazemos somente o que é necessário. Toda mulher tem capacidade de parir, mas precisa de suporte. Não podemos tirar delas esse direito baseados em fatos que não são reais", enfatiza.
Circular de cordão, o mito de que uma gestação não pode passar de 40 semanas e até mesmo o "bebê sentado" não são indicações absolutas de cesáreas. O importante, segundo o médico, é monitorar a saúde da mãe e do bebê para o melhor nascimento possível.
Para gestantes, autonomia e segurança são fundamentais
A empresária Paula Siqueira passou por dois partos totalmente diferentes, porém absolutamente humanizados, durante o nascimento dos filhos Gregório, 1 ano e 5 meses, e Vitória, de um mês. Paciente do obstetra Vinícius Fernandes de Souza, que participa do projeto Parto Adequado em Londrina, ela conta que sempre foi adepta do parto humanizado e se preparou muito para proporcionar aos filhos o melhor nascimento possível.
A primeira gestação foi muito tranquila, mas o parto não ocorreu exatamente como a mãe sonhou. Com 41 semanas e três dias de gestação, ela teve que induzir o parto porque já estava perdendo líquido amniótico. "Deu certo, mas fiquei 36 horas no hospital em trabalho de parto", recorda ela, que contou com o suporte emocional do marido e da equipe do hospital. "Me senti muito segura. Sabia que o médico só faria uma cesárea se fosse muito necessário", conta. Durante o longo período a espera de Gregório, ela só pensava que estava cada vez mais perto dele chegar. Estudar e se informar sobre o assunto, segundo ela, foram fundamentais para continuar firme no propósito.
Seis meses depois do nascimento do primogênito ela engravidou de Vitória, que também foi planejada. "Queria ter filhos com idades próximas e passar de uma só vez por todas as rotinas dos bebês", conta. Ao contrário da primeira experiência, ela conta que teve mais medo de não conseguir ter um parto natural. "Era uma cobrança interna, achava que ia ser difícil", diz.
Com 39 semanas e 6 dias de gestação, porém, ela entrou em trabalho de parto. Sentiu as contrações chegarem de forma natural e foi pela primeira vez ao hospital quando estava com 4 centímetros de dilatação. "Não queria ficar lá e pedi para ficar em casa. O médico me liberou e fiquei me preparando com a bola e no chuveiro." Quando as contrações ficaram mais fortes, ela voltou ao hospital para se internar. "Cheguei às 15h50 com oito centímetros de dilatação. A equipe ligou para o obstetra e para o pediatra, mas sequer houve tempo para chegarem. A Vitória nasceu em 25 minutos quando eu estava no chuveiro, com ajuda da enfermeira", relata. Para ela, a experiência foi incrível. "Foi tudo do meu jeito e no meu tempo. Tinha tanta informação e segurança que até consegui fazer tudo sozinha."
Mãe de Manuela, 10 meses, a analista de qualidade Fernanda Gotardo, 26, viveu a experiência de um parto humanizado do jeito que planejou. No início da gestação, porém, ela não estava tão segura. "Iniciei o pré-natal com outro médico e não me senti segura de que minha vontade seria respeitada", diz. Ao fazer um curso para gestantes com Souza, ela decidiu mudar de médico. "Eu queria alguém que fizesse o melhor para mim e o bebê e não no tempo dos compromissos dele", explicou.
O trabalho de parto durou 22 horas, mas Gotardo considera que foi tranquilo. "Fiz pilates, musculação e caminhada, estava me sentindo preparada. A equipe do hospital me deu muito apoio", relatou ela, que usou a bola e o chuveiro para aliviar as dores. O respeito, segundo a mãe, é o melhor sentimento de passar por um parto humanizado. "A Manuela veio na hora que ela quis. Depois do parto tomei banho sozinha, lavei o cabelo e fui tirar fotos, me senti muito bem."
Os benefícios foram sentidos também no pós-parto. Além de voltar à forma rapidamente, ela não teve dificuldades para amamentar a filha, que continua mamando muito. "Cheguei até a doar leite de tanto que desceu. Sinto que ela nasceu quando estava tudo pronto." (C.A.)


