Em Campo Mourão, 35 famílias trocaram velhos barracos existentes em três favelas por casas de alvenaria de 31 metros quadrados. A mudança faz parte da segunda etapa do projeto de desfavelamento que une prefeitura, Cohapar e Caixa Econômica Federal. Até o início do mês que vem, outras 49 famílias também devem se mudar, completando as 84 casas do novo conjunto e extinguindo as favelas Curió, Ouro Verde e Paulista.
Uma das famílias beneficiadas é a do lavrador Salvador dos Santos, 49 anos. Na semana passada, pouco antes de começar a mudança para a casa nova, ele e a mulher, Ana Onório, 44, não escondiam a alegria. ‘‘Nunca morei numa casa tão bonita e arrumadinha’’, disse dona Ana ainda em frente ao barraco de cinco cômodos, onde morava com quatro filhos e um neto. A única queixa é que a nova casa é pequena. ‘‘Vai ficar apertado, mas daremos um jeito’’.
Salvador não desanima nem com o fato de que, a partir de agora, vai ter que pagar prestações que variam de R$ 14,00 a R$ 23,00. ‘‘Vamos batalhar e não deixar atrasar nada’’, disse. ‘‘As contas de luz e água nós nunca deixamos de pagar’’. Nem todas as famílias, no entanto, demonstram alegria com a mudança. O bóia-fria Reinaldo Silva Brizola, 56, por exemplo, acha que vai passar apurado para pagar as prestações e a conta de luz. Hoje ele só paga água.
‘‘Para quem não tem nem o que pôr na panela, é difícil assumir um compromisso desses’’, disse Brizola. Ele ganha R$ 5,00 por dia, mas alega que nem sempre é possível encontrar trabalho. A mulher dele, Castonira, 49, também não se anima com a casa nova. ‘‘Aqui é feio, mas vivemos sossegados porque não precisamos pagar aluguel’’, explicou. Brizola e Castorina viviam no pequeno barraco com seis filhos. Se dependesse do casal, eles não sairiam de lá.
Quem também resiste à idéia da mudança é o aposentado José Ferreira, 74, casado com Tereza Aparecida Pereira, 30, e com três filhos menores de 7 anos. ‘‘A casa é boa, mas não cabe nem a metade das minhas coisas’’, contou. No barraco na Favela Ouro Verde, Ferreira não pagava aluguel nem água. ‘‘Bebíamos água da mina’’, explicou. Ele alega que não vai ter como pagar a prestação. ‘‘Os R$ 130,00 que ganho mal dão para comer’’.
As prestações de até R$ 23,00 serão cobradas apenas durante os 30 primeiros meses. A partir daí, elas saltam para mais de R$ 30,00. O chefe regional da Cohapar, Sebastião Mauro, afirma, no entanto, que a inadimplência entre as 60 primeiras famílias beneficiadas, no ano passado, é ‘‘normal’’, ficando na casa dos 30%. No final do ano, um acordo passou as prestações atrasadas para o saldo devedor e normalizou a situação dos ex-favelados em atraso.
Mauro conta também que, apesar da resistência inicial de parte dos moradores, eles acabam gostando das novas casas. Das 60 famílias que trocaram favelas pelo conjunto habitacional há um ano, por exemplo, apenas duas deixaram as casas. ‘‘Elas não voltaram para favelas’’, afirma. Para evitar que as favelas sejam reocupadas, os velhos barracos são destruídos assim que as famílias levam a mudança.

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