Projeto com ex-viciados combate drogas
Sid Sauer
De Campo Mourão
Dezoito ex-viciados em drogas de Goioerê (67 km a oeste de Campo Mourão) estão desde o início da semana passada realizando o trabalho de tentar convencer atuais viciados a abandonar o mundo das drogas. O projeto Garvid (Grupo Assembleiano Resgatando Vidas Drogadas) é coordenado pela Igreja Assembléia de Deus, que tem à frente o pastor Neri Dama, 51 anos, e foi lançado oficialmente no domingo passado, quando o grupo recebeu a consagração da igreja.
Esse grupo é o ideal para fazer esse tipo de trabalho porque sabe quem são os viciados de Goioerê, sabe onde eles estão, sabe o que é cair nessa vida e, principalmente, sabe como sair dela, frisa o pastor. Dama está há um ano e quatro meses em Goioerê e conta que há oito meses resolveu se concentrar num trabalho contra as drogas. Animado com a formação do grupo, ele prepara um livro com depoimentos de ex-drogados e sonha em ampliar o projeto.
Entre os sonhos do pastor, estão a aquisição de uma chácara para trabalhar com os casos de viciados considerados mais difícies e de uma casa de apoio na cidade. Essas pessoas precisam de ajuda, ressalta. Para iniciar o trabalho com os ex-drogados, ele conta que vem preparando os fiéis e garante que os 18 ex-drogados hoje convertidos à Assembléia de Deus ingressaram na igreja sem sofrer nenhum tipo de preconceito.
Um dos segredos que faz eles ficarem na igreja é justamente o fato de serem bem acolhidos, explica Dama. Uma das componentes do grupo de ex-drogados, Carina Marques, 20 anos, por exemplo, é a atual zeladora da igreja. Ela conta que começou a fumar maconha aos 17 anos, influenciada por amigas. Um irmão dela, que chegou a ser preso com dois quilos de maconha na Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, também está no grupo.
Por causa das drogas, Carina se envolveu com menores arrombadores e chegou a ficar 11 dias na cadeia. Só saiu quando sua mãe pagou fiança e ainda hoje responde processo. O vício, no entanto, ela largou há seis meses. Não fumo mais nem cigarro, conta. Ademir Marcelino dos Santos, 18 anos, também faz parte do grupo. Ele começou a fumar maconha aos 13 anos e cocaína, aos 15. Virou arrombador de residências e foi preso umas 30 vezes.
Como tinha menos de 18 anos, Ademir não ficava na cadeia. Voltava às ruas, às drogas e aos arrombamentos. Apanhava da polícia e não aprendia, conta. Minha única chance foi aceitar Jesus. Edson Reginaldo Dias de Oliveira, 25 anos, também usou drogas pela primeira vez aos 13 anos. Usei de tudo, desde benzina e comprimidos misturados com álcool até cocaína, conta. Edson desviava dinheiro na empresa onde trabalhava para comprar drogas e ia drogado à escola
Adorava a cocaína mais que a Deus, frisa Edson. Já Valdionor Eugênio da Silva, 38 anos, é pioneiro do grupo em abandonar o vício. Parei de usar drogas há dois anos e meio. Ele começou aos 22 anos, com maconha, e chegou à cocaína. Perdi minha família e minhas filhas, lamenta. Vivendo da venda de drogas e de roubos e assaltos, Valdionar chegou a ser preso 11 vezes, incluindo uma por tentativa de homicídio. Jesus me salvou, diz.
Devanir da Silva Souza, 34 anos, também foi um drogado, mas admite que o que mais o atraía era o tráfico. Eu pensava mais no dinheiro. Isso, no entanto, não evitou que ele quase morresse numa overdose. Tinha cheirado muita cocaína, lembra. Devanir morava em Janiópolis, cidade vizinha a Goioerê, onde tinha uma lanchonete. Era tudo fachada para a venda de drogas, ressalta. Cheguei a ter 100 quilos de maconha no estoque.Grupo de 18 pessoas de Goioerê que largou a dependência trabalha com a missão de tirar outros jovens do vício
Fotos Simone GirotoTRABALHO DE RECUPERAÇÃOCarina Marques, ex-dependente, varre a igreja que a acolheu. Abaixo, à esquerda, Rodinei Peres Lopes, que quando dependente chegou a roubar carro e se prostituiu. À direita, grupo de seis ex-dependentes, ladeados por dois pastores que coordenam o projetoAdemir Marcelino dos Santos, hoje recuperado: várias prisões





