Zilda Romero, juíza titular da Vara Maria da Penha em Londrina
Zilda Romero, juíza titular da Vara Maria da Penha em Londrina | Foto: Marcos Zanutto 09-05-2017

Mais do que espaços de cuidados com os cabelos e o corpo, salões de beleza e centros de estética acabam sendo locais de escuta, onde as mulheres se sentem confortáveis para exporem sua intimidade e falarem de questões que as afligem. Capacitar e qualificar cabeleireiras, manicures, depiladoras, massagistas e esteticistas pode ajudar mulheres a porem um fim em um histórico de abusos e agressões, contribuindo para o seu empoderamento e fortalecimento.

Esse é o objetivo do projeto Mãos EmPENHAdas Contra a Violência, iniciado em 2017, em Campo Grande (MS), e que aos poucos tem se estendido a outros estados. No Paraná, Londrina é a primeira cidade a implantar a iniciativa e nesta segunda-feira (12) cerca de 30 pessoas, entre profissionais da beleza e de órgãos que compõem a rede de proteção, se reuniram para discutir formas de violência e as formas de prevenção e denúncia.

A implantação do projeto em Londrina aconteceu por iniciativa da secretaria municipal de Políticas para as Mulheres e a Vara Maria da Penha, autorizadas pelo Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul a replicar a ideia no município. “Nosso objetivo é capacitar os profissionais de beleza porque eles têm um contato muito próximo com as mulheres. Quando identificarem algum tipo de violência, o profissional terá informação e saberá como encaminhar o caso”, disse a secretária Nádia Oliveira de Moura. Uma equipe da secretaria tem percorrido salões de beleza, centros de estética e institutos de formação desses profissionais para informar e buscar a adesão de novos parceiros ao projeto.

Juíza titular da Vara Maria da Penha em Londrina, Zilda Romero considera “importantíssimo” o projeto e a capacitação da rede de apoio em razão do aumento do número de casos de tentativa de feminicídio e feminicídio. Antes da instituição da Lei Maria da Penha, em 2006, a violência contra a mulher era tratada como um delito de menor potencial ofensivo e a punição estabelecida para o agressor era o pagamento de cestas básicas. Com a lei específica de proteção à mulher, as vítimas passaram a contar com uma rede de apoio que inclui medidas protetivas e abrigo e aos autores da violência cabem penas mais severas, que variam de dez a 30 anos de reclusão.

PROCESSOS AUMENTAM

A partir de outubro de 2010, quando passou a funcionar em Londrina o juizado de Violência Doméstica e Familiar, surgiram varas especializadas e o número de denúncias e processos que chegam até a Delegacia da Mulher e o Fórum só fazem aumentar. Segundo Romero, hoje a delegacia registra, em média, 16 boletins de ocorrência por dia e há 3.600 mulheres no município com medidas protetivas de urgência que estabelecem o afastamento do agressor do lar, o proíbem de se aproximar da vítima e promovem o desarmamento desse agressor.

“Apesar da lei com todo o agravamento da pena, estamos vendo tantas mulheres sendo vítimas e por isso precisamos da parceria da sociedade civil organizada. Esses profissionais (de beleza) são confidentes dessas mulheres e por isso a importância desse trabalho (de orientação e capacitação). Não é só a violência física, tem também a violência verbal, sexual, patrimonial, psicológica”, destacou a juíza.

Pelo CAM (Centro de Atendimento à Mulher), órgão da Prefeitura de Londrina que integra a rede de proteção às mulheres, de janeiro a julho deste ano passaram 270 mulheres que procuraram o serviço espontaneamente. Outras 170 foram atendidas pela rede e há 1.200 casos sendo acompanhados pela equipe do centro, segundo dados informados pela Secretária Municipal de Políticas para as Mulheres.

“Quando a mulher vai ao salão para mudar o cabelo, ela não quer mudar o cabelo, quer mudar de vida e, muitas vezes, esse desejo está relacionado ao relacionamento afetivo”, disse a diretora de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Karen Bettina Ikeda de Ortiz.

A capacitação dos profissionais de beleza, destacou ela, pode ser um caminho para que a mulher tenha a orientação adequada e possa tomar as decisões de forma mais plena, com a autonomia necessária para dar um novo direcionamento à sua vida. “É muito importante que esses profissionais estejam qualificados para orientá-las. Caso contrário, em vez de ajudar, pode revitimizar a mulher, com comentários do tipo 'larga desse homem' ou 'você merece algo melhor'”, ressaltou Ortiz.

UM BOM OUVIDO

Proprietário de uma escola de formação para futuros profissionais, o cabeleireiro Lincoln Tramontini já ouviu muitas histórias de abusos e agressões nos mais de 30 anos de exercício da profissão. “Somos psicólogos, não de formação, mas somos um bom ouvido”, comentou. Ele sugeriu que os salões e centros de estética distribuam às clientes um kit com informações sobre a violência contra a mulher e a rede de proteção para incentivá-las a exporem o seu sofrimento. “É a nossa contribuição para que possamos influenciar na vida dessas pessoas, levando informações sobre a lei.”

Diretora geral da área pedagógica do Instituto Embelleze em Londrina, que oferece cursos de formação na área da beleza, Márcia Veloso de Oliveira recebe na escola muitas mulheres vítimas de violência que buscam qualificação profissional para poderem conquistar a independência financeira. “Já teve casos de eu chegar e abraçar uma pessoa, sem falar nada, e ela começar a chorar”, contou. “A gente não dá muito conselho porque não tem muito o que fazer nessa hora, mas com essas informações, vou poder ajudar. Agora dá para fazer algo mais por elas.”

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