Programas tiram crianças da roça
Lucinéia Parra
Três programas de assistência a famílias carentes têm garantido uma nova realidade à crianças que trocavam estudos e infância pelo trabalho pesado da zona rural, em Amaporã (a 31 quilômetros de Paranavaí). Acostumados a acordar às 4 horas da madrugada para acompanhar os pais na roça, muitas crianças do município hoje frequentam escolas e já sonham com um futuro melhor.
O governo do Estado mantém dois programas, com contrapartida do município. O terceiro existe há três meses e é fruto da sensibilização da sociedade brasileira. Desde que apareceu em uma reportagem de TV prestando depoimento sobre o trabalho que fazia na roça, José Alves Teixeira Filho, o Zezinho, 14 anos, despertou a atenção do País para o gravíssimo problema social de Amaporã, uma cidade onde 70% dos 5 mil habitantes são bóias-frias que ganham em média R$ 8,00 por dia, quando há trabalho. Para complementar a renda familiar, a maioria dos pais manda filhos menores e adolescentes para as lavouras de mandioca, que predominam no município.
Na reportagem, José Alves disse que gostaria de parar de trabalhar. Seu desejo foi realizado a partir da criação do Projeto Zezinho, com doações para as famílias carentes de Amaporã. Por enquanto, quatro famílias carentes serão beneficiadas pelo projeto. Por intermédio de uma comissão formada por representantes do Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente, Pastoral da Criança, Pastoral da Família, Secretaria de Educação e Conselho Municipal de Assistência Social, as famílias carentes recebem alimentos, remédios e roupas comprados com recursos doados por famílias de São Paulo, Maringá, São José do Rio Preto (SP) e Novo Hamburgo (RS).
De acordo com a presidente da comissão, Nilce da Silva Ferreira Pupio, cada representante das entidades municipais atua como padrinho ou madrinha das famílias carentes. São eles que visitam as famílias e detectam as suas necessidades básicas. Depois compram o que as famílias precisam e fazem a entrega dos produtos. Além disso, fazem um acompanhamento periódico para que os filhos menores estudem e não sejam submetidos ao trabalho forçado.
Uma vez por mês, a comissão se reúne para prestação de contas, que são encaminhadas para as famílias doadoras. Em alguns casos, as próprias famílias doadoras determinam como a comissão deve aplicar os recursos enviados. No caso de José Alves, a família doadora, que é de Novo Hamburgo (RS), determinou que a comissão aplique os recursos de R$ 130,00 por mês divididos em R$ 30,00 para compra de carne, R$ 30,00 para produtos complementares da cesta básica e uma parte na compra de cinco pães diários. O restante deve ser aplicado de acordo com as necessidades mais prementes de José Alves.
A madrinha local de José Alves é a professora de 1º grau Angelina Pinheiro. Ela explica que o garoto passou a apresentar melhor rendimento na escola depois de receber a ajuda dos padrinhos doadores. Ele sempre se matriculava na escola, mas não conseguia concluir o estudo porque tinha que trabalhar na lavoura em época de safra. Agora estuda o 3º e o 4º ano na sala especial para correção de fluxo. No ano que vem, José Alves completará 15 anos e estará cursando o 5º ano.
A família do menino também recebe ajuda do governo estadual, pelo Programa Adote Uma Criança. Uma vez por mês, o pai de José Alves recebe uma cesta básica composta por dez quilos de arroz, dois quilos de feijão, dois quilos de macarrão, duas latas de óleo, cinco quilos de açúcar, meio quilo de farinha, um quilo de sal, dois quilos de leite em pó e um quilo de bolacha.
Mesmo com a cesta básica mensal do governo do Estado e a ajuda que recebe da família doadora, José Alves está longe de ter uma vida saudável. Ele, o pai e os três irmãos - dois mais velhos que José - moram em um barraco de três cômodos. Os móveis se limitam a um armário, um fogão e algumas cadeiras velhas. No lugar de cama, os cinco membros da família dormem em colchões colocados no chão.
Tantos problemas interferem no comportamento de José Alves, que apesar da pouca idade é um menino sério e de poucas palavras. Ele vive atualmente uma nova dificuldade: a família que doa recursos para ajudar José Alves quer conhecê-lo pessoalmente. Para isso, ele terá que ir até Novo Hamburgo (RS), mas é difícil conseguir dinheiro para as despesas de um acompanhante. Angelina diz que o Conselho Tutelar irá provavelmente autorizar a viagem do menino para Novo Hamburgo sozinho.
Mas ela acha prudente não arriscar. É muito longe e ele nunca viajou sozinho. O certo seria ir alguém com ele. O problema é: quem? Zezinho também não gosta da idéia de ter que viajar sozinho. Ele diz que tem vontade de conhecer a família que o ajuda. Uma vez por semana, alguém da família doadora liga para a escola e fala com José Alves.
Meio sem jeito, o menino diz que só responde o que as pessoas lhe perguntam por telefone e que costuma agradecer a ajuda que recebe. A professora Angelina diz que procura conversar com o menino para motivá-lo a continuar os estudos e tentar um vida melhor. Estamos comprando o que é mais urgente e necessário com o dinheiro que é doado. No futuro, se a ajuda continuar vindo, ele pode até ganhar uma bicicleta, diz a professora, para animar José Alves. Segundo ela, a maior preocupação dos padrinhos doadores é com o bem-estar do menino e o seu desenvolvimento. Eles querem um futuro melhor para o Zezinho.





