Programa une irmãos separados por guerra
O tempo e a distância não impediram o reencontro do casal de irmãos ucranianos Iwan, 72 anos, e Waselina Lukenczuk, 73. Os irmãos se viram pela última vez em 1947, na Alemanha, dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ontem, no aeroporto de Londrina, Iwan, que mora em Cidade Gaúcha (80 quilômetros a nordeste de Umuarama), recepcionou Waselina, que veio do Estado de Nova York, nos Estados Unidos, acompanhada de uma filha e nora.
A história do reencontro começou em 1996, quando a nora de Iwan, Sueli Lukenczuk, ouviu o programa Quero Meus Pais, da Ouvidoria Geral do Estado. Sueli escreveu ao programa relatando a história do agricultor aposentado Iwan, que nasceu na Ucrânia, em 1928, quando o país era uma das repúblicas da ex-União Soviética. Depois de três anos, a Ouvidoria conseguiu localizar a família de Iwan. No primeiro contato por carta, os irmãos que residem na Ucrânia comunicaram que não tinham condições de embracar para o Brasil. Waselina, que mora nos Estados Unidos, telefonou e decidiu vir.
Conforme o relato de Iwan, ele tinha 13 anos em 1941, quando os alemães nazistas invadiram a Ucrânia. Era o dia do casamento de uma irmã. A família Lukenczuk (Iwan tinha mais sete irmãos) foi obrigada a abandonar o lugar onde moravam, na fronteira com a Romênia e ir, de carroça, para outra região do país. Fazia mais de 30 graus negativos. Meu pai estava doente, não podia trabalhar e os nazistas aplicaram nele uma injeção. Ele morreu logo em seguida, rememorou.
Os outros cinco irmãos fugiram, mas Waselina, então com 14 anos, foi levada pelos nazistas com Iwan, para trabalhos forçados em Heidelberg, sudoeste da Alemanha. Trabalhamos na lavoura, mas eles (os alemães) me obrigaram a cavar trincheiras e trabalhar nas guaritas de campos de concentração, inclusive em Auschwitz, lembrou Iwan. Por dois ou três anos a mãe do ucraniano escrevia cartas para os dois, mas depois de algum tempo a correspondência cessou. Pensamos que todos estivessem mortos, comentou Iwan. Quando terminou a guerra, em 1945, os dois irmãos, com 17 e 19 anos, ainda ficaram dois anos na Europa, que estava arrasada. Para se ter uma idéia, um cigarro era dividido entre 20 pessoas.
Sem opção de trabalho na Europa e impossibitado de voltar para a Ucrânia, dominada pelos comunistas, só restou procurar outra saída. Naquela época, contou Iwan, o Brasil recrutava trabalhadores e ele decidiu embarcar, mas Waselina não quis acompanhá-lo. Acho que ela estava apaixonada por um sargento das forças armadas americanas, deduziu o irmão. Durante a viagem ele se arrependeu de ter deixado a moça sozinha na Europa. Vivi com sentimento de culpa até agora, confessou. Waselina casou-se com o oficial norte-americano.
Iwan trabalhou em lavouras de café no Estado de São Paulo, como escravo. No Rio Grande do Sul, conheceu a esposa, Teresa, com quem teve cinco filhos. Agora, com a ajuda dos filhos, Iwan pretende ir no próximo ano para a Ucrânia. Quero rever meus irmãos e conhecer o caçula, que nem tinha nascido quando saí de lá, disse.





