Programa tenta combater a homofobia nas escolas
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quarta-feira, 18 de março de 2009
Carolina Gabardo Belo<br> Equipe da Folha 
Professora de Língua Portuguesa há 15 anos, Noyr Rondora Marques, 39 anos, foi afastada da sala de aula em abril do ano passado por causa de sua opção sexual. Os diretores da escola em que trabalhava, no Mato Grosso do Sul, alegaram que a homossexualidade seria um mau exemplo para os alunos e os influenciaria negativamente.
A também professora de Língua Portuguesa Gabriela da Silva, 40, acredita que só não foi exonerada de seu cargo porque é concursada. Mas, se dependesse dos colegas de trabalho, a transexual não estaria na rede municipal de ensino de Florianópolis (Santa Catarina). Sempre que surge uma oportunidade, ela discute abertamente o assunto com os alunos.
As experiências de preconceito e discriminação vividas pelas duas professoras mostram o despreparo dos profissionais da educação para a convivência com a homossexualidade e a falta de discussões sobre o assunto com os estudantes. Um estudo da Unesco, de 2004, aponta que 60% dos professores não sabem lidar com a homossexualidade e que 40% dos alunos não gostariam de estudar com gays, lésbicas e transexuais.
Envolvidas em movimentos de combate à homofobia, Noyr e Gabriela contam que só agora passam a perceber uma movimentação a respeito do assunto e acreditam que apenas o debate aberto pode combater o preconceito. "Na minha vivência de 23 anos como professora, não tinha espaço para a reflexão do que é a homofobia", lembra Gabriela. "A capacitação dos profissionais vai trazer o tema para o debate, com o entrosamento entre a sociedade, entidades e o governo. Se não disponibilizarmos uma discussão, o problema vai continuar", alerta Noyr.
Para promover o debate aberto sobre o assunto nas escolas brasileiras, o Movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), em parceria com o Ministério da Educação e recursos aprovados pela emenda parlamentar da Comissão de Legislação Participativa, lançam o Programa Escola sem Homofobia. A proposta é respeitar a integralidade do ser humano e o respeito à diversidade. "Vamos promover uma cultura de paz, com respeito à inclusão de qualquer ser humano", garante Tony Reis, da coordenação do programa.
O programa prevê a capacitação de profissionais da educação para o debate e combate à homofobia no ambiente escolar, por meio de materiais e reuniões com os professores e gestores. Também será realizada uma pesquisa sobre a homofobia no processo educativo da rede pública em 10 capitais brasileiras. Representantes de organizações do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul participaram ontem da primeira reunião regional do programa.
As ações já estão preparadas para a resistência de alguns professores. "Com certeza não será fácil, pois vamos mexer com a formação das pessoas. Mas com o tempo queremos que as universidades comecem a trabalhar esse assunto, ensinando a respeitar a diversidade, bem como a racial e religiosa", afirma o diretor da Pathfinder do Brasil -parceiro no programa-, Carlos Laudari.
Saúde
Para a coordenadora municipal do Programa Adolescente Saudável, Julia Cordellini, a ampla discussão sobre homofobia abre possibilidade para a reflexão a respeito da integralidade dos jovens, pois compreende sua saúde mental e sexual.
A coordenadora municipal de DST/Aids sa Secretaria Municipal de Saúde, Mariana Thomaz, ressalta ainda a valorização da saúde do jovem, que sente-se seguro e reduz a vulnerabilidade a doenças sexualmente transmissíveis. "Está em crescimento o número de jovens até 19 anos que estão se infectando. É reflexo do início da vida sexual sem preservativo. O debate promove o aprendizado e seus cuidados", analisa.


