Há dez anos, a londrinense Sandra Eugênio Jorge sofre surtos psicóticos. Por se tratar de uma doença crônica, a moradora do Jardim Cabo Frio (Zona Norte) tinha que tomar medicamentos todos os dias e ser constantemente internada. ''Quando eu não tomava remédio ficava muito mal. Perambulava pela casa e escutava coisas. Uma vez eu vi a pomba-gira atacando meu sobrinho e fiquei muito agitada. Já fui internada um monte de vezes, o doutor sabe contar'', relatou Sandra.
Foi por meio do Programa de Pacientes Não Aderentes ao Tratamento Ambulatorial, do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que a vida de Sandra mudou. Hoje, além de não precisar mais ser internada, ela toma apenas uma dose mensal de um medicamento injetável, que a deixa bem, sem ter crises psicóticas, possibilitando uma vida social digna. ''Hoje estou super bem. Participo de oficinas artísticas aqui no CAPS e o que eu mais gosto de fazer é pintar'', comentou.
O projeto começou a ser idealizado em 2000, mas foi realmente efetivado no final de 2004. Segundo o psiquiatra do CAPS, Nilton Carlos Ferreira, o programa é pioneiro no Brasil e possibilita a redução da internação psiquiátrica, além de contribuir com a inclusão social do paciente.
''Em 70% dos casos, em todo o Brasil, quando um paciente psicótico entra em crise, ele é internado, melhora e sai do hospital. Porém, não dá continuidade no tratamento. O programa visa a substituição da medicação oral diária por uma dose mensal de medicamento injetável com efeito prolongado, o que acaba mantendo o paciente sem crises e em contato com o posto de saúde próximo da casa dele'', explicou Ferreira.
A psicose é uma doença crônica e genética que pode surgir em qualquer fase da vida. O psiquiatra explicou que ela não tem cura, apenas deve ser controlada e estabilizada, para que a pessoa possa levar uma vida normal. ''Existem vários tipos de psicoses, as esquizofrenias, os transtornos afetivos e psicoses orgânicas. Elas são conhecidas popularmente como loucuras. No programa tratamos exclusivamente de pacientes que não aderem ao tratamento. A maioria deles acha que não está doente e acaba deixando de tomar os medicamentos, facilitando assim novas crises'', complementou.
Ainda de acordo com o médico, existem cerca de 15 mil psicóticos em Londrina. Porém, apenas 330 pacientes das zonas urbana e rural fazem parte do programa. Desde a implantação, houve uma redução de 84% dos internamentos na cidade.
Por conta desses dados, o programa está entre os 12 finalistas do ''Prêmio de Inclusão Social - Saúde Mental'', iniciativa da indústria Farmacêutica Eli Lilly, com apoio da Associação Brasileira de Psiquiatria. O concurso está na 4 edição e é considerado um dos principais da área no Brasil.
O controle da doença, o retorno do paciente para a família e o resgate da cidadania foram alguns dos quesitos avaliados pelo concurso, além da redução do número de internamentos. O resultado será divulado no 24 º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, no próximo dia 26, em Curitiba.

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