Programa reduz nível de estresse no HU
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Um estudo de doutorado desenvolvido no Hospital Universitário (HU) de Londrina comprovou o que o ''caso Orkut'' já insinuara dois anos atrás: problemas de relacionamento com colegas de trabalho são o principal motivo de estresse entre os colaboradores da instituição. A mesma pesquisa demonstrou que, felizmente, é possível contornar a situação.
Conduzido pela psicóloga e docente da Universidade Filadélfia (Unifil) Edelvais Keller, o trabalho teve início em maio de 2005, a partir de entrevistas individuais feitas com 115 profissionais do hospital - enfermeiros, auxiliares, médicos e funcionários técnico-administrativos, entre outros. O diagnóstico revelou os principais agentes, sintomas e níveis de estresse entre os entrevistados.
Para surpresa da doutoranda, o testemunho diário da dor e da morte vivenciados num hospital não apareceu sequer entre os 20 principais agentes estressores. Os três primeiros fatores da lista foram, nessa ordem, problemas de relacionamento com colegas, idem com a chefia e falta de espírito de equipe e coleguismo. ''Eles relataram muitas rixas, jogos de poder, assédio moral, principalmente entre pares de mesmo nível hierárquico, que praticavam atos com o intuito de querer prejudicar o outro'', afirma.
O início da pesquisa coincidiu com um episódio que trouxe a público o clima de inimizade que existia no HU. Residentes de medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que atuavam no hospital haviam postado então uma série de mensagens ofensivas e de cunho racista contra enfermeiros, auxiliares de enfermagem e até pacientes no site de relacionamentos Orkut. O caso rendeu sindicância, inquérito policial e ações na Justiça.
''Os voluntários (no estudo) se mostraram revoltados e muito tristes com essa situação. Uma das queixas que mais apareceram foi de depressão. Muitos estavam tomando medicamentos antidepressivos'', observa a psicóloga.
Sete por cento dos pesquisados apresentaram um nível altíssimo de estresse classificado como ''exaustão'', que acarreta doenças graves. A maior parte, 40%, havia atingido o estágio de ''perigo agudo'', manifestando baixa imunidade. Outros 35% estavam na fase de ''perigo'', na qual o corpo começa a se esgotar, e 18% em ''alarme'', quando o organismo se prepara para lutar ou fugir.
Iniciou-se então um programa de intervenção psicológica com dois enfoques: nas relações interpessoais, tanto familiares quanto no trabalho, e nas técnicas de relaxamento apoiadas na respiração profunda. Em 12 sessões com 90 minutos cada, os colaboradores do HU compartilhavam seus problemas, trocavam experiências, conheciam aspectos teóricos do estresse e participavam de dinâmicas de grupo.
Um espaço tranquilo, com colchonetes, pouca luz e música calma foi reservado no hospital para as sessões de relaxamento. ''Era a hora que eles mais adoravam, uma permissão para se deitar no meio do expediente e esquecer todo o resto'', comenta a psicóloga. Os voluntários também eram estimulados a se imaginar em situações como alimentar três gigantes ou galopar em cima de um dragão. ''Se eram capazes de controlar isso, poderiam controlar qualquer coisa.''
Os resultados surpreenderam a pesquisadora. ''Colegas que antes se viam como inimigos passaram a ser suporte emocional um do outro, a auto-estima aumentou. Os sintomas de estresse reduziram significativamente, refletindo em melhor qualidade de sono, facilidade de lidar com problemas em geral e melhora nas relações interpessoais'', aponta.
Oitenta e cinco pessoas foram acompanhadas do começo ao fim do trabalho. Orientada pela professora doutora Mathilde Neder, a tese entitulada ''Análise transacional em hospital: efeitos de um programa de intervenção psicológica em trabalhadores de hospital com vistas ao enfrentamento do stress'' foi apresentada na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e estará disponível nas bibliotecas do HU e Unifil.


