Programa que previne a cegueira recebe prêmio
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quinta-feira, 11 de setembro de 1997
Osmani Costa 
Londrina
Josoé de CarvalhoReconhecimentoO médico Rui Schimiti: Será feito em caráter nacional o que já fazemos com sucesso em IbiporãImplantado há oito anos pelas secretarias municipais de Educação e Saúde de Ibiporã - em conjunto com a Secretaria Estadual de Educação e uma instituição filantrópica -, o programa de prevenção à cegueira em crianças nas escolas acaba de receber o prêmio de Melhor trabalho da região Sul, concedido pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).
O prêmio, de caráter científico, foi entregue pelo CBO em Goiânia (GO), na última semana, ao oftalmologista idealizador e coordenador do programa, Rui Barroso Schimiti. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 1987, há nove anos Schimiti é funcionário da Secretaria de Saúde de Ibiporã (14 km a leste de Londrina).
Em oito anos de existência, o programa - apresentado ao CBO sob o nome acadêmico de Prevalência de afecções oculares em pré-Escolares e escolares de Ibiporã - atendeu 13.471 crianças das 21 escolas municipais, estaduais e particulares existentes naquele município. Isso significa uma cobertura de 93,45% das crianças matriculadas em pré-escolas e escolas até a 4ª série.
O programa de prevenção e combate à cegueira em escolares consiste em três fases subsequentes. No início de cada ano letivo - nos meses de fevereiro e março -, os professores e pedagogos, treinados por Schimiti, realizam testes de acuidade visual nos alunos, dentro das salas de aula. As crianças que tiverem alguma dificuldade nos testes - ficando dentro da margem de dúvida sobre possíveis problemas nos olhos - são encaminhadas à segunda fase: triagem médica com o aparelho de retinoscopia (lanterninha para verificação do grau de deficiência visual).
Os alunos com deficiências detectadas são encaminhados para consulta médica e tratamento oftalmológico, no Centro de Saúde de Ibiporã. O programa já realizou 1.966 consultas médicas, nas quais Schimiti é auxiliado, desde o ano passado, pela também oftalmologista Andréa Maria Motta de Siqueira. Para montar e equipar o Centro Oftalmológico que serve de base ao programa, a Prefeitura investiu, ao longo dos anos, o equivalente a R$ 18 mil.
As professoras e pedagogas que dão apoio e sustentação ao programa pertencem também à Secretaria Estadual de Educação e ao Centro de Atendimento ao Deficiente Visual de Ibiporã (Cadevi), uma organização não-governamental com fins filantrópicos. O grande resultado deste programa - além dos resultados práticos de se evitar uma doença terrível que é a cegueira - foi a integração das várias secretarias e entidades municipais, estaduais ou privadas, num objetivo único. Os resultados são muito bons, comenta Rui Schimiti.
Os exames anuais e os tratamentos necessários beneficiam todos os estudantes de seis escolas estaduais, sete particulares e oito municipais. As visitas diárias às escolas - nas primeira e segunda etapas do programa - são organizadas pela pedagoga Maria José Ferreira Gregui, coordenadora do Cadevi. Nestes oito anos de existência, o programa detectou 614 crianças com problemas - miopia, astigmatismo, hipermetropia etc.- que levaram ao uso de óculos.
Outras 237 crianças tinham ambliopia - cegueira parcial por falta de estímulo -, que foi resolvida também com o uso de óculos, exercícios específicos e uso de tampão ocular. Dezessete sofriam de catarata e foram submetidas a cirurgias, que são realizadas no Hospital de Olhos de Londrina. Dezoito estavam sendo atacadas pela corioritinite, uma inflamação da retina que pode levar à cegueira e é provocada pela contaminação de microorganismos provenientes da carne de porco mal cozida ou das fezes de animais domésticos como cães e gatos.
Todos os exames, consultas, cirurgias e tratamentos oferecidos pelo programa são gratuitos. Rui Barroso Schimiti - que fez especialização em glaucoma na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde atende como médico voluntário - comenta que este tipo de prevenção não é pioneira. Ela está prevista em lei desde 1971. Pena que poucos municípios instituiram, na prática, o programa. Um que teve excelentes resultados foi realizado pela professora da USP, Edméia Rita Temporini, em escolas estaduais de São Paulo, entre 1973 e 76.
O trabalho premiado pelo CBO é subscrito ainda por Newton Kara-José, chefe do departamento de Oftalmologia da Unicamp, e Vital Paulino Costa, chefe do setor de Glaucoma da Unicamp, duas das maiores autoridades médicas na área de oftalmologia no Brasil. Vital Costa foi também o orientador de Rui Schimiti no curso de especialização realizado na Universidade de Campinas.
Schimiti conta que o CBO realizará em 98 uma campanha nacional com o lema Veja bem, Brasil, que divulgará a necessidade e a importância de exames, testes e triagens que detectem, logo na infância, as doenças que podem provocar a cegueira. Ficamos muito felizes pela coincidência. O Conselho vai tentar sensibilizar as autoridades políticas e fazer, em caráter nacional, o que já fazemos com sucesso em Ibiporã há oito anos.


