Ao chegar à casa de Maria Angélica Lemes Pelizon, de 50 anos, no Parque Ouro Branco, na zona sul de Londrina, o visitante é recepcionado por dezenas de cachorros que ela foi recolhendo das ruas ao longo dos anos. São 80 animais que vivem soltos no terreno da casa. Apenas três são castrados.
Com o início da segunda etapa do programa municipal de castração de animais, que começou na sexta-feira, Maria Angélica espera ser beneficiada e conseguir castrar todos os cães. Nesta nova fase do programa, os fiscais da Vigilância em Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde vão visitar os locais com denúncia de pessoas acumuladores para averiguar a situação dos animais.
Durante as visitas, serão avaliados o ambiente em que os animais ficam, os cuidados e o perfil da pessoa que cuida deles. "Normalmente o acumulador, os próprios animais, o ambiente e os vizinhos sofrem com o acúmulo, mas ele não admite o problema", explicou Sandra Oka, coordenadora de Saúde Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde.
Estão mapeadas inicialmente 51 pessoas. Em alguns casos, os vizinhos ou funcionários dos Centros Regionais de Assistência Social (Cras) fizeram a denúncia. Em outros, os próprios acumuladores e protetores de animais entraram em contato solicitando para participar do programa.
Segundo o médico veterinário Valmor Venturini, responsável pelo programa, as visitas também são importantes para repassar orientações sobre a posse responsável e os cuidados com os pets e verificar quem é realmente acumulador. "O nosso ‘cobertor’ é curto, temos que priorizar o atendimento", comentou Venturini.
A intenção nesta segunda fase é castrar em torno de 500 animais em quatro meses. Após as visitas das equipes da Vigilância em Saúde, quem se enquadrar na segunda fase deve procurar a Diretoria da Vigilância Sanitária para fazer o cadastro. Depois basta agendar o procedimento na Clínica Veterinária Clinicão.
No primeiro dia de visitas, as equipes estiveram em cinco casas. Em duas a situação foi classificada como urgente. Entre elas, a de Maria Angélica. Como são muitos animais, Venturini explicou que está em estudo a logística para levá-los até a clínica veterinária onde será feito o procedimento.
Enquanto não faz a castração de seus cães, Maria Angélica adota medidas para evitar que eles se reproduzam. Durante o cio, as fêmeas ficam confinadas em um cômodo, isoladas dos demais animais. "Elas ficam ali até um mês com ração e água. Às vezes, eu solto, mas se os cachorros ficam muito agitados em volta delas, tranco de novo até passar o cio. Nenhuma das minhas cadelas pegou cria aqui em casa", contou Maria Angélica. São 60 fêmeas.
Ela começou a recolher os cães da rua há 13 anos. A ideia era pegar, cuidar e colocar para adoção, mas percebeu que encontrar interessados em adotá-los não era tarefa fácil. "Eu via os cães, bebês e velhinhos nas ruas, debilitados e trazia aqui para casa. Mas as pessoas não querem os adultos", reclamou.
Agora, Maria Angélica tem muita dificuldade para colocar os animais para adoção. "Não doo, não. O povo pega e joga fora depois. Então, é melhor ficar aqui mesmo", justificou. A vida dela gira em torno dos cachorros. Ela conta com a ajuda do vizinho Daniel Castro Mota, de 17 anos, que passa o dia no local cuidando deles. "Venho para cá de manhã e só saio de noite", relatou o adolescente.
Apesar de Maria Angélica rejeitar ser chamada de acumuladora, ela se considera uma protetora. Essa dificuldade em se desapegar dos animais é característica dos acumuladores, segundo a coordenação do programa municipal. "O excesso de cães e gatos no terreno não significa que a pessoa é acumuladora, mas sim a forma como ela se relaciona com eles. A pessoa não tem vida social e não consegue doá-los, porque acredita que só ela pode cuidar bem do animal", comentou Venturini.

PRÓXIMAS FASES
O programa começou em outubro do ano passado e terá duração de um ano, podendo ser prorrogado por até cinco anos. Ele foi dividido em três etapas.
A primeira atendeu às famílias beneficiárias do programa Bolsa Família. Foram castrados em torno de 400 animais. Na terceira etapa, será a vez das ongs de proteção animal regularmente instituídas. Segundo Venturini, a intenção é, após a terceira etapa, retomar a castração dos animais das beneficiárias do Bolsa Família.
A Clinicão foi a vencedora da licitação. O contrato anual é de R$ 270 mil. A Secretaria Municipal de Saúde deverá pagar, por procedimento, entre R$ 195 e R$ 425, dependendo da espécie, do peso e sexo dos animais. Os procedimentos incluem castração, vermifugação, vacinação e a implantação de microchip.

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