Curitiba - A boneca é trocada pela vassoura, por uma pilha de roupas sujas para lavar e um bebê de verdade para tomar conta. No lugar do futebol e do videogame, uma extenuante jornada para catar papelão. Para 98 crianças de Colombo, Região Metropolitana de Curitiba, a infância só voltou a ser uma brincadeira há cerca dois anos, quando passaram a fazer parte do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti). Antes, a infância dividia espaço com o trabalho. Ligado ao Programa Catavento, o Peti organizou ontem, em Colombo, uma mobilização para chamar a atenção para o problema do trabalho infantil.
Cerca de 50 crianças com idades entre oito e 14 anos mostraram o que vêm aprendendo, como capoeira e teatro. Também entregaram panfletos contra a exploração infantil para quem passava pelo terminal de ônibus do Maracanã, onde aconteceu a mobilização. Entre as funções mais comuns desempenhadas pelas crianças estavam o de empregada doméstica para as meninas e de catador de lixo reciclável entre os garotos. Nas situações mais extremas, até casos de exploração sexual e aliciamento para o tráfico de drogas foram encontrados na cidade.
O Peti faz parte da política pública federal que dá um auxílio financeiro às famílias de crianças e adolescentes que sofrem exploração infantil. Em Colombo, o programa é realizado em conjunto com o projeto Catavento, desenvolvido pela Central de Notícias dos Direitos da Infância e Adolescência (Ciranda). O objetivo é prevenir e tentar erradicar o trabalho infantil nas cidades de Colombo e Almirante Tamandaré, também Região Metropolitana de Curitiba.
Números da Organização Internacional do Trabalho (OIT) dão conta de que em torno de 250 milhões de crianças e adolescentes no mundo são obrigados a trabalhar. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que exista 5,5 milhões de trabalhadores mirins. Ainda segundo o IBGE, a mão-de-obra infantil no Estado do Paraná é de cerca de 339 mil crianças.
Os números alarmantes no Estado fazem parte, na opinião de Karine Carvalho, responsável pelo projeto Catavento, da cultura de que é comum e aceitável a criança trabalhar. Ela diz que muitos pais acham que os filhos precisam ajudar em casa, sem ter idéia de que o ''ajudar'', na realidade, é exploração. Soma-se a esta cultura a baixa renda das famílias e o descontentamento com a quantia oferecida pelo programa para que as crianças não trabalhem e estejam matriculadas em alguma escola.
Hoje, o auxílio para as famílias que participam do Peti varia entre R$ 20 e R$ 40 por mês. ''Trabalhando, a criança ganha muito mais que isso'', reconhece Karine. Mas o que muitos pais não exergam é como o trabalho pode prejudicar uma criança.
A responsável pelo projeto estima que cerca de 70% das crianças em Colombo, todas ex-trabalhadoras, tenham dificuldades na escola, como problemas de escrita e leitura. Os reflexos são evidentes: evasão escolar e falta de perspectivas para o futuro. No plano físico, há a debilidade e a deformação do corpo, decorrentes da exposição a acidentes e doenças causadas pelo trabalho.
Além disso, essas crianças amadurecem muito rápido e, consequentemente, acabam excluídas de um grupo social: a infância se perdeu mas a fase adulta ainda não chegou. Figuram em uma zona intermediária em que não são crianças, nem adultos, nem adolescentes. Essas informações fazem parte do material distribuído pelas crianças na ação de ontem. ''A auto-estima delas é muito baixa'', completa Karine.

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