Existem profissões em que se é obrigado a lidar com tantas reações hostis que podem ser chamadas de profissões-perigo. Ninguém que foi mais de uma vez a um estádio de futebol deixou de xingar um juiz. Nenhum motorista dá razão ao fiscal de trânsito que lhe aplica uma multa. E ninguém recebe um oficial de justiça com café e bolachinhas.
Trata-se de funções que exigem sangue frio para lidar com ofensas e tomar decisões imparciais, justas. O operador de telemarketing Flávio César Policarpo cita outros atributos essenciais dentro de sua profissão: paciência e simpatia. ''Na primeira e na última ligação que faço num dia de trabalho, tenho que mostrar a mesma calma e o mesmo empenho'', explica ele.
Policarpo trabalha na área há três anos. Atualmente, está empregado em duas empresas em Londrina. Ele calcula que nos dois trabalhos faz ao todo, em média, 150 telefonemas por dia. O estresse no serviço é inevitável: ante a insistência, há quem recuse por meio de impropérios o produto oferecido. ''É preciso ter dom. Tem que ser chato, insistente, senão não vende'', reconhece o operador. ''Teve um caso em que eu liguei para um cliente várias vezes e, depois de um ano de contatos, ele concordou em adquirir o produto. E disse: 'Aceito pela sua insistência, não pelo produto'''.
No quesito profissões-que-despertam-palavrões, o clássico absoluto é o juiz de futebol. Valter Luiz Antônio da Silva, o 'Black', tem 43 anos e é árbitro desde os 19. Decidiu entrar na profissão quando era jogador de handebol e o prefeito de Londrina à época não liberou a verba para sua equipe disputar os Jogos Abertos do Paraná. ''Por falta de opção, fiz cursos de arbitragem e comecei a apitar'', conta.
'Black' foi juiz da Confederação Brasileira de Futsal por 15 anos. Hoje, está vinculado à Federação Paranaense de Futebol (FPF), e atua em campeonatos juvenis, no Campeonato Paranaense profissional e em torneios amadores. Uma das experiências mais traumáticas de sua carreira aconteceu em Cambará (22 km a noroeste de Jacarezinho), quando 'Black' apitou uma partida de juniores em que o time da casa, o Matsubara, perdeu. ''Eu e os bandeirinhas ficamos trancados numa sala e os torcedores começaram a atirar pedras. Só saímos com a ajuda da polícia'', lembra ele.
'Black' afirma que os árbitros são tratados de forma hostil porque os brasileiros levam a sério demais o futebol. ''Em partidas amadoras, tem cara que joga como se fosse uma final de Copa'', argumenta. ''Às vezes o sujeito tem uma frustração, porque queria ser profissional e não conseguiu. E leva esse sentimento para o campo, acaba ofendendo o juiz. No futebol profissional, a mídia incentiva a polêmica e todo mundo malha o árbitro''.
O que leva essas pessoas a insistir em trabalhar numa função que exige lidar frequentemente com a grosseria alheia? Prazer no que faz, diz Maria Luiza Jorge, assistente de um colégio particular de Londrina. Na escola, ela determina suspensões, advertências, chama os pais. Como é a encarregada de assuntos espinhosos (função que em outros colégios é exercida pelo inspetor), tem que lidar com os estudantes nos momentos em que eles estão mais nervosos. ''Os alunos gostam de mim, brincam comigo, mas sabem que eu faço o que tenho que fazer''.

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