Daniel Biasetto
Agência Estado
A mão-de-obra sem preparo está com os dias contados. A grande massa dos trabalhadores não sobreviverá à revolução provocada pela automação, pela telecomputação e pela globalização de mercados. É o que prevê o ativista político-social americano Jeremy Rifkin, autor do livro ‘‘O Fim do Trabalho’’. Para tentar contornar o problema, muitos governos e sindicatos têm investido na reciclagem e preparação de mão-de-obra qualificada, enquanto a empresa de consultoria Trevisan & Associados fez uma pesquisa a fim de detectar o que as crianças precisam saber para ser bem-sucedidas no século 21.
Segundo o pesquisador e professor José Pastore, ‘‘as empresas do futuro estarão cada vez mais em busca das pessoas curiosas e interessadas em aprender o tempo todo, porque um quadro de pessoal que seja adaptável às mudanças é a melhor vantagem comparativa para enfrentar um mundo de concorrência galopante’’: ‘‘Os critérios de seleção já mudaram bastante, e vão mudar muito mais. Já foi o tempo em que você tinha grandes chances no mercado de trabalho quando anunciava ser engenheiro, administrador ou economista, formado por uma boa faculdade. Isso conta, mas não é tudo.’’
Em suas palestras, Jeremy Rifkin tem insistido na tese de que ‘‘a era industrial se baseou no trabalho em massa para a produção de bens e serviços’’, enquanto a era da informação ‘‘é baseada no uso de uma pequena elite da força de trabalho altamente qualificada e equipada com sofisticadíssimos computadores e outras tecnologias, formando o que pode ser chamado de setor do conhecimento’’. Na sua opinião, a massa de trabalhadores não terá como sobreviver à era da informação.
‘‘A mão-de-obra qualificada será atingida pelo desemprego nas próximas décadas, mas para quem não tiver estudo a situação será infinitamente pior’’, afirma, por sua vez, o economista Celso Barroso Leite, autor do livro ‘‘O Século do Desemprego’’.
Atento a essas constatações e previsões, o Instituto Trevisan de Educação insiste na necessidade de que é obrigação de todos – pais, educadores, governantes – ‘‘antecipar tanto quanto possível a visão do futuro’’. O consultor Luiz de Oliveira Filho concorda. Para ele, ‘‘educação é tudo, é preciso ler, é preciso ir ao cinema, conhecer arte, pois a arte não é só estética. A arte de fazer as coisas bem feitas deve estar presente na profissão’’.
Ao mesmo tempo em que economistas e pesquisadores insistem na tese de que só o diploma não bastará para o profissional do século 21, há uma corrente que faz outro alerta: a revolução tecnológica não abre espaço apenas para a informática. Nos próximos anos, também aumentarão as oportunidades nas atividades ligadas à biotecnologia, meio ambiente, qualidade, química, telecomunicações e relações internacionais, entre outras. Os novos mercados de trabalho já vêm sendo identificados nas universidades e nas empresas.
Marcelo Galvão, diretor do Centro de Desenvolvimento da Inteligência e da Intuição, da Consultoria Dorsey e Rocha Associados, não pinta o futuro com cores pessimistas, embora também admita a importância da criatividade e do avanço tecnológico contínuo, além do que define como ‘‘um diferencial para se sobreviver no mercado’’. Esse diferencial, segundo ele, ‘‘será baseado na inteligência e a tendência é de que os produtos tenham custo próximo de zero’’. E a tarefa dependerá basicamente dos ‘‘cabeças-de-obra’’, que substituirão a mão-de-obra.
‘‘O cabeça-de-obra será altamente qualificado e será contratado para prestar serviços. É como se fosse uma terceirização mais evoluída’’, acrescenta, para em seguida discordar da tese de Jeremy Rifkin, garantindo que o trabalho não morrerá. ‘‘Nesse contexto – conclui Galvão – o emprego como hoje é conhecido chegará ao fim, mas o trabalho não’’.
Ele não é a única voz discordante em relação à polêmica tese sobre o fim do trabalho. Outros economistas e pesquisadores também pensam da mesma maneira. Sempre que é questionado a respeito, Rifkin lembra o que vários escritores previram na virada do último século: ‘‘Em 1900, eles diziam que, no século 21, as máquinas seriam tão boas que nos permitiriam mais lazer’’.Revolução tecnológica está criando a figura do ‘cabeça-de-obra’, que nos próximos anos sucederá a ‘mão-de-obra’
Arquivo FolhaRECICLAGEM PERMANENTEPesquisa da Trevisan & Associados mostra o que a criança de hoje precisa saber para ser bem-sucedida no século 21: curiosidade e interesse constante em aprender serão pré-requisitos em um futuro muito próximo

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