Profissionais deixam diploma de lado
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de outubro de 1998
James Alberti 
Estudar já foi uma receita considerada infalível para garantir um futuro promissor na vida. Mas, para muitos paranaenses, os canudos não têm sido um sinal de emprego certo. Ao contrário, tornaram-se motivos de desilusão por causa do baixos salários, do desencanto com a realidade do trabalho e com o desemprego. Tais fatores levaram engenheiros a dirigir táxis ou fazer sanduíches, professoras a trabalhar em balcões de lavanderia, advogados a tocar violão nas noites da capital. Alguns abandonam as profissões por opção, para seguir aquilo que gostam ou que é mais rentável. Outros ainda amargam o desemprego.
O advogado Newton Amaral Ferreira, 30 anos, formado há três anos pela Pontifícia Universidade Catlólica, do Paraná, experimenta o sabor amargo das filas do Sistema Público de Emprego (Sempre, antigo Sine) há cinco meses. Ele é um dos 3.319 universitários que enviaram currículo para o Sempre, oferecendo-se ao trabalho. Destes, apenas 73 talvez tenham obtido uma vaga. Esse é o número de cargos ofertados neste período, segundo o gerente da agência do Sempre em Curitiba, Ari Batista da Silva.
As poucas vagas oferecidas, a necessidade de obter o sustento e o desemprego levam os diplomados a serviços nos quais jamais imaginariam trabalhar quando brindavam a conquista da formatura. Ferreira, por exemplo, pretende deixar a advogacia de lado por enquanto e procura outra especialidade. Para isso, conta com a experiência de vendedor de produtos de limpeza no passado. Auxiliar de escritório, qualquer coisa. O que não posso é ficar parado, afirma.
Outra saída para o crise momentânea é a venda de um terreno, que ele ganhou de presente. Deste negócio, pode sair o dinheiro para montar um escritório particular e voltar a advogacia. Com ele, Ferreira pode também realizar o sonho que compartilha com Beatriz, sua noiva. Os dois adiaram o casamento, por enquanto, por causa do desemprego.
Mas trabalhar em qualquer coisa pode provocar sentimentos que levam à lona a auto-estima dos formados. A gente tem que se sujeitar a coisas que jamais pensou, diz a professora Josiane Aparecida Luiz de Lima, 20 anos, que trabalha como balconista e caixa em uma lavanderia há oito meses.
Inconformada com seu destino profissional, a professora afirma ter se desiludido. A gente fica triste porque sabe que pode fazer algo mais importante, mas ao mesmo tempo não pode sair daqui, afirma. É o mesmo que pegar um cara que tenha faculdade e colocá-lo ele para trabalhar como auxiliar de pedreiro, afirma. Eu sei que tenho capacidade para fazer coisa muito acima disto, diz. Os problemas surgem, por exemplo, com as supervisoras, que tem nível escolar inferior. Ela arruma problemas que não existem. Só que é o mundo dela. Você consegue ver além do que ela vê. São problemas criados pelo conhecimento que ela tem.


