Devaldo Gilini Júnior
Editor da Folha
Os monsenhores José Agius e Bernardo Gafá são os padres diocesanos mais antigos que ainda permanecem na Diocese de Londrina, que neste ano completa o Jubileu de Ouro (50 anos). Eles vieram de Malta, uma pequena ilha perto da Itália colonizada por ingleses. Chegaram em dezembro de 1961, somente quatro anos depois da criação da diocese, convidados pessoalmente por dom Geraldo Fernandes, o primeiro arcebispo de Londrina.
Dom Geraldo cursou Direito Canônico, em Roma, e sabia que na Ilha de Malta havia muitas vocações. Quando tomou posse na diocese de Londrina, no dia 17 de fevereiro de 1957, ele estava preocupado com a pequena quantidade de padres diocesanos existentes naquela época - apenas 11.
Um ano depois, em 11 de fevereiro 1958, ele esteve no seminário maior da Arquidiocese de Malta, fazendo propaganda sobre o Brasil, tentando conquistar seminaristas. O jovem Bernard Carmel Gafá (hoje, monsenhor Bernardo, da Catedral Metropolitana de Londrina) ficou interessado, junto com outros companheiros.
''Dom Geraldo encontrou um ambiente favorável, com espírito missionário forte encaminhado para a América Latina'', diz Bernardo, relembrando que o papa João 23 havia feito um discurso convocando missionários para a AL e o padre belga François Houtart mostrou no seminário vários filmes e slides de sua peregrinação por países latino-americanos.
Na Ilha de Gozo, em Malta, o jovem Joseph Bernard Agius (hoje, monsenhor José, pároco da Matriz São José, em Rolândia) ficava insistindo com dom Joseph Pace, bispo da Diocese de Gozo, que queria fazer parte das missões na África, em Tanganica ou Quênia, colônias britânicas como Malta. Pace não tinha contatos com africanos e falou que José deveria vir para o Brasil, mais precisamente para Londrina.
O jovem seminarista fez contato com o reitor do seminário maior, em Malta, monsenhor Victor Grech, que lhe passou o endereço de Bernardo. Os dois começaram a se corresponder e buscar mais informações sobre o Brasil. Eles não sabiam nada da terra distante. Pensavam que aqui era igual à África. ''Ninguém falava no Brasil, só Carnaval, floresta e macacos'', lembra Bernardo. ''Meu irmão olhou no mapa e falou: 'Você vai ficar perto do Rio São Francisco'. No mapa, parecia perto.''
''A Embaixada do Brasil em Roma nos mandou um livro que tinha somente três fotos do Paraná, em preto e branco: de Vila Velha, em Ponta Grossa; da Rua Muricy, em Curitiba; e de um lavrador peneirando café'', reforça José. ''Eu nunca havia visto um pé de café.''
Depois de muito pensar e de várias trocas de correspondências, em 25 de abril de 1961, dom Geraldo enviou cartões para os cinco seminaristas malteses (José guarda o dele até hoje) dando o 'ok' para que eles viessem a Londrina.
O contrato firmado entre as dioceses era o seguinte: a de Londrina pagaria a passagem de avião, os estudos no seminário de Curitiba, todas as demais despesas, e após 4 anos, eles voltariam a Malta para rezar a primeira missa como padres, rever parentes e amigos. Depois teriam de cumprir 5 anos na diocese londrinense.
Bernardo conta que eles foram a Roma, acertaram os papéis na Embaixada e iniciaram uma viagem pela Europa. No aeroporto de Madri, estavam com excesso de bagagem. Mas deram um 'jeitinho' (já se ambientando ao Brasil). Foram ao banheiro, vestiram pijamas, calças por cima, blusas, casacos, sobretudos, batinas e o chapéu tradicional dos padres da época. O peso das malas ficou menor e puderam embarcar.
O desconhecimento do Brasil era tanto que a mãe de um seminarista que já estava aqui pediu a Bernardo que trouxesse 12 sabonetes e 1 quilo de talco. Ele também trazia objetos para padres que estavam em Recife. ''Quando cheguei, percebi que ficava mais fácil enviar direto de Malta do que mandar de Londrina para o Pernambuco'', diverte-se Bernardo.

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