O velho conselho de se andar pela sombra nunca foi tão válido em Londrina como nos últimos anos. Para constatar o ditado na prática, basta uma dose de culpa na consciência e disposição para folhear a sessão de classificados do jornal, onde despontam, com descrições e formas de pagamento cada vez mais atrativas, as ofertas de serviços de detetives particulares.
Alguns desses profissionais ouvidos pela Folha consideram a atividade arriscada, mas bastante rentável, com um filão explorado de pelo menos 10 clientes por semana e casos que variam de R$ 600 até R$ 65 mil. A profissão é auto-regulamentada e possui diversos órgãos espalhados pelo Brasil, mas que oferecem apenas cursos por correspondência e carteirinhas de identificação. Para exercer o ofício, os detetives precisam de alvará da prefeitura, e, como em qualquer outro, devem prestar contas ao INSS.
Apesar do lucro certo, contudo, ser detetive hoje em dia exige bem mais que espírito investigativo e os simbólicos lupa e binóculo, marcas de um passado já distante. Que o diga Salvador Rodrigues Filho, de 28 anos, há dez na ativa. De acordo com ele, além do apoio de outros agentes e de carros, motos e um escritório para a clientela, é preciso um investimento mínimo de R$ 30 mil para se lançar no mercado.
Este investimento é canalizado na compra de potentes gravadores, microcâmeras, microfones e transmissores sem fio, aliados à ajuda por vezes fundamental da internet, e, nesse caso, de hackers. ''Antigamente as pessoas traíam a partir de disk sexo e amizade; hoje começa até pelas salas de bate-papo'', diz, mostrando um equipamento mínimo que, instalado no micro, grava até uma semana de conversação on line.
Mesmo relativamente jovem, o detetive diz já ter perdido a conta de quantos casos atendeu de questões conjugais a desaparecimento de pessoas, passando por investigações industriais de empresários sobre seus sócios. No caso dele, afirma, os casos de adultério predominam, e são os homens quem mais o procuram buscando soluções para seus problemas. ''Isso porque, em grande parte das vezes, eles é que são a fonte maior de renda do casal. Aí fica difícil para a esposa justificar um gasto de R$ 1,5 mil, R$ 2 mil, o preço normalmente cobrado nessas situações'', justifica.
Já Antônio Carlos de Almeida, de 42 anos, também há uma década no ramo, conta que a clientela feminina corresponde a pelo menos 60% do público atendido. ''Formado'' pela Central Única Federal dos Detetives do Brasil, com sede em São Paulo (SP), ele garante que aparelhagem de última geração não basta para solucionar um caso: ''Tem que ter instinto e vocação para a atividade, que é perigosa, mas muito emocionante''. No mais, é conseguir bancar uma estrutura mínima: carro, moto, a menor câmera possível, microfone sem fio e um celular com sistema de mensagens e foto. ''O resto é dispensável no início'', afirma.
Mais que simplesmente acabar com uma dúvida, muitas das provas levantadas pelo detetive particular podem ser utilizadas no tribunal durante um processo, desde que sejam legais. Alguns exemplos são gravações telefônicas feitas na linha do próprio processante, vídeos e fotos analógicas mais difíceis, portanto, de serem manipuladas.
Mesmo assim, nem sempre a consulta ao especialista tem essa finalidade. ''Nos casos de adultério que atendo, cerca de 90% querem apenas as provas para pedir a separação ao cônjuge. Nisso, acabo levando muito calote'', diz Rodrigues Filho. Almeida já se precaviu da situação: se o cliente não paga, ''vai ter que suportar a pressão''. Mas há uma saída que, segundo ele, é infalível. ''Levo o traído até próximo do motel onde ele vai dar o flagra. Antes, peço para assinar meu cheque, senão não o levo até lá'', revela.

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